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Xadrez, hipopótamos e como lidar com os loucos

É inegável que o governo Jair Bolsonaro exerceu uma escalada de violência em sua linguagem de forma muito mais acelerada do que se previa. Todos sabiam, inclusive aqueles que o apoiaram e se arrependeram, da sanha autoritária da família, e isso não é razão para surpresas. Até mesmo para os mais pessimistas o acirramento se deu de forma muito rápida. Nenhuma análise foi capaz de prever nível tão exagerado de radicalismo em tão pouco tempo.

Enquanto isso aqueles que se opõem ao governo continuam a repetir os mesmos erros que praticaram durante os longos anos da campanha de Jair: eles ainda não entendem o que está acontecendo e nem sabem como lidar com tudo isso. A imprensa, por exemplo, continua caindo em armadilhas deixadas pelos bolsolavistas, gerando para eles todas as narrativas possíveis. A esquerda continua atacando valores que são caros à população brasileira e acredita que gritar Lula Livre esteja servido para alguma coisa, quando na realidade só ajuda o governo. Mas e a direita democrática? Esta tem patinado diante das atrocidades defendidas por agentes públicos ligados aos autocratas. 


Para citar exemplos práticos vou pegar alguns mais recentes. A defesa de Eduardo Bolsonaro ao AI-5, que toda a direita democrática acusou de ser autoritária. 

Sim, de fato é autoritária. Mas atacar o deputado nestes termos não faz muito efeito. Ailás, é precisamente isto o que ele espera. É necessário entender que se Eduardo tivesse qualquer receio de ser apontado publicamente como autoritário ele jamais teria defendido o AI-5 em público. Quando ele faz a defesa do autoritarismo de forma pública o objetivo é justamente gerar esse debate, é justamente criar um desconforto em seus rivais, que naturalmente reagiriam de forma nervosa, ao mesmo tempo em que assovia para os cães sarnentos que o rodeiam. Eduardo já sabia que seus adversários o chamariam de autoritário, mas ele também sabia, como um bom aluno de Olavo, que esta discussão acabaria o favorecendo.

Ontem escrevi em meu Facebook uma postagem a esse respeito e vou reproduzi-la aqui, na íntegra:


Outro exemplo que posso citar, igualmente recente, é o da decisão do governo em cancelar as assinaturas do jornal Folha de São Paulo. Todos nós sabemos, por razões óbvias, que tal decisão nada teve a ver com austeridade. Seria muito bom se fosse este o motivo, pois de fato é obsceno o governo usar dinheiro público para assinar um jornal enquanto seus funcionários, muito bem pagos, poderiam comprá-lo por conta própria. Mas sabemos que Jair tomou esta decisão como uma retaliação autoritária a um veículo de imprensa que ele não gosta. É precisamente a mesma coisa que o PT ameaçou fazer na época em que Rachel Sheherazade criticava o governo no jornal do SBT. A diferença é que o PT não fez.

No entanto ao tratar deste assunto muitos direitistas acusam o governo de ter tomado uma decisão autoritária, o que de fato é verídico (as motivações foram mesmo autoritárias), e não percebem que aos olhos do público não há nada de errado nisso. A população de maneira geral não é capaz de perceber todas as nuances do mundo político, por isso é muito fácil para os governistas defenderem tal medida. Eles simplesmente alegam que o governo gastava muito dinheiro com um jornal que, em verdade, está com sua imagem bastante desgastada desde 2016. Enquanto você acusa o presidente de ser autoritário, a população o enxerga como alguém que economizou o dinheiro dela com algo que ela não tem o menor interesse. Para quem olha de fora, sem saber de tudo o que acontece, os críticos parecem apenas uns chatos ressentidos que não apoiam nada que o governo faz.

É preciso entender, antes tarde do que nunca, que esta é uma guerra em curso. Não há mais como evitá-la, ela já é uma realidade há muito tempo. A direita democrática foi engolida pela onda Bolsonaro desde o começo por não perceber o que estava acontecendo desde 2013. Esta guerra começou a ser travada por eles já naquela época, mas os democratas não enxergaram mal algum e, aqueles que enxergaram, não tiveram coragem para enfrentar este mal. Ignorância e covardia foram os signos da eleição passada quando se trata daqueles que realmente defendem uma democracia saudável e sólida. Os que não apoiaram Bolsonaro ficaram no mínimo calados assistindo tudo acontecer. E aconteceu.

O ponto todo, em minha opinião, é que desde sempre falta visão estratégica para quem quer enfrentar Bolsonaro. A maior parte de seus adversários tem apenas se limitado a fazer o jogo dele. Talvez o xadrez tenha algo a ensinar sobre isso.

Mikhail Tal, ex-campeão mundial de xadrez

O jogo de xadrez pode ser um jogo de paciência. Você pode jogar com calma, defender sua posição, ganhar pequenas vantagens pouco a pouco até combinar tudo isso em um ataque que finalize seu oponente. Você pode simplesmente esperar seu adversário criar fraquezas, porque todo movimento, por melhor que seja, sempre tem o seu ponto fraco. 

Por outro lado o xadrez também pode ser uma verdadeira bagunça. Você pode atacar com fúria, pode ter pressa para vencer e aplicar o xeque mate o mais rápido possível. Você pode desequilibrar o jogo com sacrifícios de peça e deixar seu oponente confuso o suficiente para que ele não tenha tempo de respirar. Isto é o que fazem alguns dos maiores atacantes deste esporte, e é neste ponto que entram os cálculos.

Quando você parte para o ataque no xadrez é natural calcular as variantes possíveis depois que seu lance for feito. Uma vez que você mova a peça não há mais retorno, então muitos jogadores mais cuidadosos tendem a perder um bom tempo calculando tudo o que pode acontecer após o seu movimento. Só que nem sempre é possível calcular todas as variantes. Quando há um sacrifício envolvido as possibilidades podem se tornar infinitas. 

Mikhail Tal, conhecido como Mago de Riga, foi um dos maiores enxadristas da história e é até hoje ídolo de muitos. Era um sujeito boêmio que fumava e bebia frequentemente, inclusive durante torneios. Nada a ver com o estereótipo de um nerd estudioso. Mas sua grande marca era a criatividade nos tabuleiros. Um atacante primoroso, Tal era temido justamente por seus sacrifícios materiais, em muitos casos chegando a sacrificar a dama para criar oportunidades de ataque. 

Certa vez, em uma entrevista, perguntaram ao enxadrista se ele pensava em algo além do xadrez quando se encontrava sentado ao tabuleiro defronte a um adversário. “Certamente”, disse. E citou um exemplo: em um dos muitos campeonatos patrocinados pelo então governo soviético, Tal encontrava-se em uma posição delicada na partida. Seu primeiro impulso foi sacrificar um dos cavalos, apesar de desconfiar da própria decisão. “Comecei a calcular e me horrorizei com a ideia de que o sacrifício deu errado”. Segundo Tal, os pensamentos começaram a se amontoar em sua cabeça. Uma torrente caótica de possibilidades, às vezes sem nenhuma relação entre si, crescia sem parar de maneira monstruosa. Nesse momento, o jogador diz que se recordou de uma célebre poesia infantil soviética:

Oh, como é difícil o trabalho
De arrancar um hipopótamo do pântano!

“Não conseguiria explicar porque esse hipopótamo se meteu no tabuleiro, mas a verdade é que, enquanto os espectadores achavam que eu estava analisando as jogadas, eu pensava em como diabos poderia arrancar um hipopótamo do pântano”. Olhando para as peças, Tal imaginava alavancas, arreios e helicópteros com escadas de corda. Depois de inúmeras tentativas, sem encontrar nenhum método aceitável de retirar o gigantesco animal do meio da lama, ele desistiu do seu experimento mental e pensou, com amargura “Então, que se afogue!”.

Tudo isso é uma espécie de metáfora. Tal simplesmente não tinha certeza se valia a pena sacrificar o cavalo. Ele não tinha certeza se o resultado seria mesmo o melhor possível. Ao tentar calcular todas as possibilidades, ele percebeu que não era capaz de chegar a uma conclusão porque as possibilidades eram inúmeras. No entanto, ao notar que não era capaz de calcular, ele concluiu algo muito óbvio: seu adversário também não seria capaz fazer o cálculo. Então sacrificou o cavalo e depois venceu a partida.

Muitos dizem até hoje que Mikhail Tal não era alguém que fazia realmente os melhores lances, mas que ele tinha uma habilidade incrível de criar posições confusas e desequilibradas, de modo que deixasse seus oponentes sempre em situação desconfortável. É óbvio que ele também perdia de vez em quando, mas até o ano passado, mesmo tendo morrido em 1992, Tal deteve o recorde mundial de invencibilidade, tendo ficado sem perder por 95 partidas consecutivas. Este recorde só foi batido em 2018 pelo terceiro melhor jogador do mundo, o chinês Ding Liren, que mais recentemente veio a ser superado pelo atual campeão mundial Magnus Carlsen. Ou seja, Tal manteve seu recorde de invencibilidade no xadrez, conquistado lá na década de 1970, por quase 50 anos. Não o chamam de Mago por acaso.

E o que tudo isso tem a ver, afinal?

Apesar de serem crápulas engenhosos e autoritários, os governistas não são gênios. Pelo contrário, eles cometem muitos erros e são exageradamente precipitados. Os democratas, por sua vez, estão tentando combatê-los com racionalidade, sem perceber que nem tudo o que eles fazem é racional. Eles não sabem exatamente onde é que tudo isso vai parar. Esse acirramento que promovem é, ao mesmo tempo, uma força e uma fraqueza, porque todo movimento, por melhor que seja, também gera vulnerabilidades. 

Os governistas estão simplesmente atacando tudo e todos, de forma tresloucada, sem saber exatamente quais serão os resultados. Os rachas internos demonstram outra coisa: não existe nenhuma coesão entre eles. São engenhosos em sua guerra narrativa e manipulam habilmente o debate público, mas quando precisam agir além do discurso são bastante atrapalhados, desajeitados, e acabam demonstrando absoluto despreparo. Embora sejam autoritários e tenham, sim, os seus métodos, a verdade é que esses sujeitos chegaram ao poder sem terem um plano realmente definido. Isso, contudo, pode mudar a qualquer momento. 

Quando os governistas começarem a se organizar de forma concreta, quando eles perceberem que a população está suficientemente anestesiada e que eles podem se unir em prol de sua sanha autoritária, aí não teremos mais nenhuma chance. Isso deve ser evitado a qualquer custo. É preciso aproveitar suas fraquezas de modo a criar feridas entre eles próprios. 

Os democratas estão atacado justamente onde eles são mais fortes, e isso não tem dado nenhum resultado. Quando uma tática falha ela precisa ser revisada ou simplesmente abandonada. Se você quer fazer um lance e percebe que seu oponente pode refutá-lo facilmente, abandone este plano e comece outro. Mas sempre tenha um plano.

Quais são as maiores fraquezas dos governistas? Creio que são duas as principais: a desconfiança que eles têm uns com os outros, pois sempre enxergam traidores em todo canto, e sua pseudo moral cristã. Eles são orgulhosos por "não serem corruptos", como se isso não fosse apenas obrigação. Então é muito mais útil atacá-los nesta esfera do que nas acusações de autoritarismo que na realidade eles adoram. Da mesma forma é muito mais útil promover a fritura dos aliados do governo do que tentar evitá-la. Cada vez que fritam um aliado eles perdem uma peça no tabuleiro. Não devemos evitar estas frituras. Pelo contrário, devemos incentivá-las, fomentá-las de alguma forma, promovendo desconfiança entre eles. 

Há, obviamente, outras táticas possíveis, outras formas de atacá-los. Mas a estratégia toda deve consistir em atacar suas fraquezas, não suas forças. Os alvos devem ser pessoas estratégicas para o governo.

Não se combate o caos com a ordem. Se o que eles querem é um incêndio criminoso, então devemos levar galões de gasolina. Eles promovem o caos de forma que possam controlá-lo. Devemos tirar deles o controle.
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