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Os perigosos perdedores que alimentamos


O massacre covarde praticado na escola de Suzano - SP acabou trazendo para a superfície algo que já existia há muito tempo nos esgotos da internet: fóruns frequentados por perdedores, frustrados e com tendências suicidas, os chamados "incels". No discurso garotos e até marmanjos revoltados com a sociedade atual, na prática um bando de fracassados que não conseguem transar e descontam sua profunda tristeza em cima dos outros.

Já tive contato com estes fóruns, assim como também já conheci gente que vive nessa bolha, inclusive pessoalmente. Pretendo aqui apenas explicar um pouco do que se trata e como é que a direita acaba entrando nessa história.

O meu primeiro contato com esse universo se deu em 2008, mas não foi de maneira tão direta. Conheci os "pick-up artists", que traduzindo para língua de gente é algo como um artista da sedução. Neste mundo paralelo existem sujeitos ganhando verdadeira fortuna com a promessa de conseguir transformar um rapaz virgem, pobre, triste e sem traquejo social algum em uma espécie de sedutor bem sucedido com mulheres. 

Sem entrar nos pormenores, pois não têm tanta relevância assim, neste mundo há palestrantes, autores de livros, etc. Não é que todos sejam picaretas, até existem alguns sujeitos bem intencionados como Neil Strauss que praticam o lado bom da coisa, ajudando jovens a se tornarem menos introspectivos, a se aceitarem como são, a lidarem com a rejeição de cabeça erguida. O problema todo é o que há por trás desse discurso: a ideia de que existe um método efetivo para conquistar qualquer mulher, o que é simplesmente falso. 

Esse discurso é problemático em sua essência por tratar a dinâmica social como se fosse algum tipo de ciência exata, mas a verdade é que essas técnicas nem sempre funcionam. Em muitos casos a frustração do entusiasta acaba até se agravando após sucessivos fracassos. O outro lado da moeda é justamente quando dá certo até demais, o que quase sempre torna o garoto antes tímido e rejeitado em uma espécie de Casanova, mas calculista e metódico na tentativa de descolar uma transa. O sujeito acaba se tornando um sociopata que manipula conscientemente uma mulher apenas para fazer sexo, não se importando minimamente com qualquer consequência ou desdobramento que possa surgir.

O movimento "PUA", contudo, ainda é uma tentativa de contornar o problema, por isso não o vejo como problemático em si. A misoginia, no entanto, é presente. Em geral o "artista da sedução" enxerga o sexo oposto como algo, não como alguém. Para ele a mulher é meramente um alvo, um troféu, uma conquista a ser desbloqueada porque tudo é um jogo. Não preciso ir muito além para demonstrar o quanto isso pode ser ruim, certo?

Onde é que entram os chamados "incels", os celibatários involuntários? Estes são sujeitos que, com a mesma base de raciocínio de um PUA, ou seja, sexualmente frustrados, socialmente desajustados e, é claro, misóginos, preferem entrar de cabeça na reclusão. Eles adotam uma atuação distinta de um PUA, e em vez de buscarem a relação com o sexo oposto, escolhem se manter distantes alimentando rancor contra a sociedade que não os valoriza ou mesmo os percebe como eles gostariam. 

Na realidade são mimados, em resumo. Mimados que usam qualquer pretexto, desde uma rejeição amorosa até o simples fato de terem supostamente sofrido bullying na escola como um tipo de justificativa moral. Eles se vêem como rejeitados não porque são pessoas detestáveis em seus convícios sociais, mas porque "a sociedade é injusta". Eles são rejeitados por uma mulher não por serem misóginos, grosseiros e absolutamente enfadonhos, mas porque "as mulheres não prestam", ou porque "elas só querem os babacas com dinheiro". 

Nestes fóruns online onde se reúnem, os "incels" passam praticamente toda a sua vida medíocre destilando ódio contra mulheres, contra a sociedade, contra qualquer um que não seja como eles. Pessoas bem sucedidas também costumam ser alvo, porque grande parte de toda essa estrutura psicológica está diretamente ligada ao fracasso pessoal.

Mas onde é que a direita se encaixa nessa história?

Bem, é preciso entender que toda a origem desse sistema de crenças dos "incels" não é de ordem política. Em alguns casos até possuem fundamentação religiosa, principalmente nos países europeus. No Brasil é mais uma espécie de alcoólicos anônimos do mal. Eles se unem em prol do próprio fracasso, alimentam o próprio fracasso, incentivam uns aos outros a permanecerem no fracasso e de quebra vez ou outra algum potencial suicida é instigado a matar pessoas inocentes em nome da causa. 

No entanto não podemos tapar os olhos diante dos fatos. A alt-right deu a estes sujeitos um ambiente propício para sua expansão. Atualmente grande parte do movimento anarco capitalista é tomada por estes grupos. Isso não tem tanto a ver com a ideologia em si, mas com a manutenção de um ambiente em que a liberdade de expressão é tão amplamente aceita que chega a ser absoluta. Ou seja, os "incels" encontraram um espaço no qual podem falar qualquer merda sem sofrerem algum tipo de censura. Por mais que ainda sejam igualmente desprezados, eles conseguem falar porque ninguém os cala.

Em 2014, por exemplo, expulsei dois "incels" de um grupo liberal aqui de Joinville. Fui amplamente criticado pelos outros libertários do grupo, que acharam a atitude autoritária demais. Eles queriam que eu mantivesse os dois no grupo para que eles continuassem defendendo o nazismo, a misoginia e outras besteiras.. Em resumo, os libertários acreditam tão profundamente na liberdade que permitem até mesmo a liberdade de outras pessoas atuarem firmemente contra eles. O instinto de sobrevivência e o bom senso foram substituídos por uma filosofia moral fraca e permissiva, o que inevitavelmente levou o movimento libertário para sua decadência poucos anos mais tarde. Hoje os libertários de verdade são minoria no movimento, a maior parte é composta justamente por "incels" e neoconservadores monarquistas cuja única bandeira é ser um "cruzadista".

Em resumo, o próprio anarco capitalismo foi sugado para dentro da alt-right, e não só aqui no Brasil. Quanto aos "incels", o movimento neoconservador os aceita muito bem. Indiretamente até os incentiva. Allan dos Santos que o diga, aliás. 

Então não é que exista uma relação de causalidade entre os "incels" e a alt-right, é mais como um tipo de promiscuidade involuntária. O discurso moral dos neoconservadores é, em grande parte, condizente com o pensamento de um "incel", pois se baseia na ideia de que a sociedade está moralmente decadente e que grande parte disso é culpa das mulheres. A forma como os neoconservadores enxergam o sexo também é condizente com a mentalidade "incel". Foi por isso que estes fracassados encontraram na alt-right um espaço onde conseguem conviver, e isso acabou levando para dentro do movimento deles algumas bandeiras neoconservadoras. 

Os "masculinistas", como também podemos chamar, já existiam há muito tempo, mas eles sempre foram negligenciados. Hoje sabe-se que são potencialmente perigosos, mas foi preciso mais um massacre para demonstrar o perigo. Infelizmente as coisas não vão mudar muito, já que no Brasil é praticamente impossível internar alguém compulsoriamente em um manicômio, mas lá é o lugar de sujeitos assim, não em nossa sociedade.

Se a sociedade está decadente, e talvez esteja, em grande parte é por culpa de pessoas exatamente assim.
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