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Discutir "teoria" de Olavo sobre Kant já é um sinal claro da nossa decadência

No fim de semana saiu uma matéria de jornal com especialistas em Kant, o filósofo alemão, rebatendo uma vídeo-aula de Olavo de Carvalho na qual ele ataca o pensador. A matéria é breve para debater um tema tão profundo, por isso muitos disseram que "o conteúdo era muito raso". Eis que um dos entrevistados pelo Globo resolveu se manifestar além disso, escrevendo um extenso artigo no qual expõe as mentiras de Olavo (sim, mentiras, não é engano). 

Vou me abster de entrar no mérito filosófico da questão porque, como meus leitores sabem, também não sou um especialista em filosofia e tampouco em Kant, de modo que comentar o tema fingindo sabê-lo nada mais seria do que imitar Olavo. Mas sugiro que leiam o artigo do professor Daniel Peres e logo abaixo deixo meus comentários que nada têm a ver com filosofia.

"Daí que ele, em uma aula sobre um texto de Kant, sequer apresente o texto de Kant , mas passe boa parte do  tempo comentando um texto que ele próprio publicou em um jornal." (Daniel Peres, em seu artigo, dizendo o óbvio)

A frase acima é praticamente o resumo do que quero explicar para todos aqui. Se observarmos bem, o fato de existir a necessidade de explicar para as pessoas porque Olavo está errado sobre Kant é, por si só, um sinal preocupante. É, aliás, uma sinal de que Olavo obteve muito êxito em sua missão de tornar seus seguidores cegos e surdos, blindando-os do mundo real ao torná-los incapazes de raciocinar.

Na "aula" de Olavo sobre Kant em momento algum ele apresenta o que Kant escreveu. Aliás, o guru quase nunca apresenta suas fontes, nem mostra o embasamento de suas análises, tampouco prova posteriormente qualquer coisa que diga. E isso faz parte do ritual de sua seita. A ideia não é realmente que Olavo comprove ter razão. Para que o plano funcione, é preciso que seus alunos creiam nele, e é exatamente por isso que em geral eles não o questionam. É a diferença entre fé e gnose

Para que fique mais fácil de compreender, imagine o seguinte cenário:

- O professor de matemática chega na sala, no início do ano letivo, e começa uma longa explicação sobre algum tema específico. Ele discorre longamente sobre como grandes matemáticos da história eram, na realidade, estúpidos. Critica até Pitágoras, diz que o teorema está errado, propondo um entendimento diferente da questão. Mas ele não cita absolutamente nenhuma fonte de estudo, não apresenta aos seus alunos uma base para que eles possam se nortear a partir de agora. E no final o teorema proposto por ele não oferece um resultado matematicamente satisfatório.

Em um mundo normal as pessoas diriam que este professor é maluco ou simplesmente picareta. Elas questionariam, por exemplo, de onde ele tirou suas ideias. Ele teria que provar matematicamente que está certo, e se não provasse simplesmente estaria errado. 

O ponto é que quando se trata de filosofia, ou de qualquer outra ciência social, tudo é bem diferente da matemática. Sobra espaço para interpretações divergentes, para discussão acalorada e principalmente para a exposição de novas teses o tempo todo. E é neste campo que os gurus fazem a festa. 

Tal como a Bel Pesce, apesar de ser muito menos inofensivo, Olavo de Carvalho vem há décadas surfando na onda da ignorância brasileira. Este caso referente a Kant comprova bem este ponto. Enquanto Olavo não apresentou qualquer evidência para sustentar sua tese maluca sobre o filósofo, o que por si só já seria suficiente para duvidar do que ele diz, o outro lado apresentou, explicou, mostrou detalhadamente o que havia de errado no que Olavo propôs. Mesmo assim, entretanto, há pessoas aos montes ainda defendendo o que o guru falou. 

Outro dia, conversando com um colega que diz, há anos, gostar muito do trabalho de Olavo - e que também já disse diversas vezes que Olavo costuma acertar suas previsões (!?) - acabou confessando que na realidade só leu parte de um livro dele, além de umas postagens do Facebook e meia dúzia de vídeos. Outro colega, que no caso deliberadamente nunca leu nada que Olavo tenha escrito, repetiu aquela mesma conversa fiada de que foi o guru quem abriu caminho para a direita no Brasil.

Isso é só para ver como a mentira funciona bem até mesmo fora da seita. Estes dois colegas não são olavettes, mas também não são sequer minimamente conhecedores do trabalho dele. Mesmo assim o veem como uma espécie de figura mítica. Se eu lhes pergunto objetivamente o que Olavo fez, não sabem dizer porque simplesmente não sabem nada sobre ele, mas certamente dirão que fez algo importante e repetirão bordões inventados pelo próprio guru.

O fato de estarmos discutindo Kant sob o aspecto apresentado por Olavo, de certo modo, é uma derrota moral. É como se estivéssemos aceitando que ele deve influenciar o debate, quando a única realidade aqui é que ele deve ser exposto como mentiroso. Não importa o que Kant disse, importa o que Olavo disse e não comprovou. Discutir se o filósofo alemão era ou não um inimigo do cristianismo como propõe Olavo é até uma inversão do ônus da prova. Ele é quem deve provar o que fala, não o contrário.
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