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O conservadorismo revolucionário

Embora no discurso o novo governo se auto defina como conservador, na prática ele está mais para revolucionário. Em verdade esta é uma das principais características do neoconservadorismo, que tem muito pouco a ver com o pensamento conservador de fato.

A despeito de fatos mais importantes como promessas de campanha que não serão cumpridas, ou mesmo o fato de que o decreto da posse de armas agora já é, comprovadamente, uma cartada política ao estilo "jogar pra galera", a base ideológica do governo é evidente tanto quanto foi na era petista. Sobre isso, devo admitir, até concordei com Joel Pinheiro em seu recente artigo para a Folha.


O novo chanceler e também o Ministro da Educação foram claramente escolhidos através do apadrinhamento de Olavo de Carvalho. O guru da Virgínia tem suas qualidades, mas não é capacitado para indicar quem quer que seja para o governo, principalmente por se tratar de um embusteiro.

Em sua campanha Bolsonaro prometeu algo que já não se cumpre em seu mandato. Ele garantiu aos eleitores que colocaria somente gente qualificada nos cargos de confiança, que nenhuma escolha seria ideológica. Isso já se provou mentira. Ricardo Vélez é, sem nenhuma dúvida, uma escolha ideológica. O chanceler também. 

Da mesma forma, a manutenção de Marun no governo é sem qualquer dúvida uma escolha política que visa manter certas relações entre os partidos. No caso, já ficou evidente que PSL e MDB se tornaram amigos e que todo o discurso contra a velha política foi usado para vender. 

O conservadorismo é uma linha de pensamento anti-política. O que um conservador espera é que o governo tenha menos atribuições e que ele não seja o agente social a determinar nossos valores. No governo Bolsonaro, entretanto, vê-se o oposto. Assim como os petistas queriam aparelhar as instituições e impor suas regras e seus "valores", Bolsonaro agora faz o mesmo com sinais trocados. 

Para um conservador, não é assunto de Estado o que compete à vida privada. A forma como os pais criam seus filhos, a roupa que se veste ou as crenças que se tem. Este é um pilar moral do conservadorismo, que na realidade deu base ao pensamento liberal moderno. 

Sob o pretexto do discurso antipetista, da "limpeza" no Planalto, o novo governo atua como seus antecessores vermelhos. É claro que agora parece exagero. Muitos dizem que não, dizem que Lula e Dilma foram piores. Mas é preciso entender que Lula e Dilma tiveram, juntos, quase 13 anos de governo. Bolsonaro ainda nem completou duas semanas. Se em tão pouco tempo seu caráter revolucionário e ideológico ficou evidente, não se pode esperar coisas boas depois.

Darth Vader nasceu como Anakin Skywalker, mas se corrompeu. O Lula de 2002 não era o mesmo que hoje está atrás das grades. Essas distorções políticas ocorrem por conta de uma mentalidade revolucionária e, neste caso, revanchista. No entanto o presidente, seja qual for, governa para todos, não só para os seus. O PT também jogou para a platéia, também fez promessas impossíveis, também atuou como agente social. A diferença é que fez isso por outras motivações.

Aquilo que era a maior força de Bolsonaro como candidato é agora sua maior fraqueza como governante: o discurso moralista. Mas isso já era esperado. Quem realmente conhece Bolsonaro, quem verdadeiramente o acompanha há mais tempo do que nos últimos quatro ou cinco anos, sabe de seu caráter dúbio e suas falas controversas. Não das polêmicas bobas sobre o Kit Gay, mas sobre o apoio dado a Hugo Chávez ou sobre a amizade temporária com integrantes do PCdoB.

Bolsonaro votou contra o plano Real junto ao PT e seus aliados. Bolsonaro votou a favor do aumento de seu salário como deputado, igualzinho aos seus colegas do Congresso. Bolsonaro se absteve de votações importantes e polêmicas na Câmara diversas vezes, assim como seus filhos também fizeram em seus respectivos cargos. Será que essas coisas realmente ficaram no passado? Aparentemente, não.

Ao que tudo indica, quem acreditou na campanha eleitoral do novo presidente foi enganado tanto quanto em todas as outras eleições.
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