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Marun, Rodrigo Maia e Bolsonaro: Quando a realidade vence os quadrinhos

Em Gotham City todos sabem que o Batman, aconteça o que acontecer, jamais irá se misturar com a ralé. Os inimigos podem atacá-lo, podem feri-lo e até mesmo matá-lo, mas ele permanecerá com seus valores intactos e sua moral incorruptível. 

É claro que os inocentes moradores de Gotham não sabem, porém, que o Batman é Bruce Wayne, alguém em condições bem confortáveis e que pode se dar a alguns luxos, dentre eles o de ter uma vida dupla na qual se dedica ao heroísmo. Por usar uma máscara, Bruce também não corre riscos fazendo o que faz. Os inimigos podem destruir o personagem, mas não o homem.


No mundo real, entretanto, não existe Batman. 

Jair Bolsonaro se elegeu por três razões muito simples. A primeira, sem dúvida, foi o discurso anti-corrupção, a pauta moralista. Qual era até então o argumento de seus apoiadores? O argumento era o de que Bolsonaro nunca esteve envolvido em nenhum tipo de acordo, criminoso ou não.  Venderam para o público a imagem de alguém que não negocia com corruptos, que não se senta com eles, que não dialoga com eles.

O outro ponto principal de toda a narrativa estava justamente no ataque aos adversários que fazem essas negociações. Em 2017, por exemplo, Bolsonaro se candidatou à presidência da Câmara dos Deputados. Lembram? Ele teve menos votos do que Luiza Erundina naquela ocasião. Foi quando Rodrigo Maia se elegeu presidente da casa já pela segunda vez.

Diferente da maioria, minha memória é excelente. Sendo assim, pergunto: Qual foi o argumento usado para explicar a derrota de Bolsonaro? Obviamente argumentaram que ele não venceu porque, diferente de Rodrigo Maia, não fez nenhum tipo de acordo. Sem os conchavos de Maia, diziam eles, era impossível vencer. Sendo assim, Bolsonaro perdeu por não negociar nada com ninguém.

Em parte isso até é verdade, mas o que toda essa narrativa escondia era o fato inegável de que, cedo ou tarde, a postura de radical moralista não poderia mais funcionar. É fácil ser o Batman no Congresso Nacional. Lá você não precisa mostrar serviço, não tem que apresentar resultados e não há milhões de pessoas esperando que você milagrosamente resolva a vida delas. Na presidência a história é completamente diferente. 

Não dá para ser o Batman. O presidente precisa ser um pouco mais Tony Stark. Ou seja, ele não pode apenas se esconder atrás da armadura. Ele precisa se expor, precisa ser inteligente, precisa saber negociar quando é a hora de negociar, precisa saber recuar quando é a hora de recuar. 

Toda a narrativa bolsonarista foi, na melhor das hipóteses, ingênua ao tratar do assunto com um elevado culto à personalidade. Ao público vendeu-se a ideia estapafúrdia de que um homem honesto e bem intencionado iria mudar o Brasil ao alcance de seus desejos mais puros. Venderam ao público a imagem de alguém que subiria o Palácio do Planalto extirpando todos os corruptos de lá. Claro que entre o mundo dos quadrinhos e o mundo dos fatos sempre existe um abismo. 

Agora os fatos que atrapalham esta narrativa estão se tornando cada vez mais presentes. Depois do caso Queiroz e Servulo, quando ficou claro que o gabinete de Flávio Bolsonaro funcionava exatamente como o de qualquer político comum, veio ao público a informação de que o PSL estaria negociando com Rodrigo Maia um apoio para mantê-lo na presidência da Câmara.

Maia, para quem não se lembra, está envolvido em alguns problemas com a Justiça. Ele é investigado pelo recebimento de meio milhão em propina da Odebrecht. Além disso, é também o mesmo Maia que engavetou a CPI da UNE, o que na época gerou bastante críticas justamente pelos mesmos que hoje apoiam Bolsonaro.

O outro caso é o de Carlos Marun, homem de Temer e Cunha no Congresso que também está envolvido em diversos esquemas de corrupção, investigado pela Justiça por inúmeras irregularidades, mas que ainda assim pode permanecer no governo de Jair Bolsonaro e em um cargo chave: o Conselho de Itaipu Binacional.

Como os bolsonaristas vão lidar com essa situação? Eles não vão. A escolha é aceitar em silêncio porque a realidade os nocauteou. Não há discurso que possam fazer para justificar aquilo que até pouco tempo eles próprios diriam ser injustificável. Não existe argumento para validar o que eles disseram ser inválido.

É claro que Bolsonaro, agora como presidente, precisou negociar. E ele precisou negociar inclusive com os corruptos, com a velha política, com o MDB, com os mesmos marajás de sempre. Qual o motivo? Ele precisa governar e não há como governar sem aliados. Mesmo que o PSL tenha a segunda maior bancada na Câmara, ainda assim o partido equivale a apenas 10% da totalidade. O presidente precisa de dois terços.

Isso tudo decepciona, mas só decepciona porque os eleitores foram iludidos com um discurso falso moralista. Como em toda campanha, o vencedor enganou o público com um discurso que era realmente impraticável. Para Bolsonaro ser o Batman ele precisaria usar máscara e ter recursos ilimitados à sua disposição. Para Bolsonaro ser presidente ele precisa dar a cara a tapa e fazer acordos espúrios e questionáveis, ou ele pode cair assim como outros caíram.

Bolsonaro não é um mito. É só um político.
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