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Estratégia das tesouras: Teoria conspiratória ou pura loucura?

Se você procurar por "estratégia das tesouras" no Google vai acabar entrando em um infindável número de sites de teorias conspiratórias, em sua maioria portais neoconservadores adeptos de uma postura "peculiar" diante da realidade. Recentemente, aliás, o projeto Brasil Paralelo lançou uma série de vídeos com este título contando a história das eleições desde Collor até 2014 - e, é claro, omitindo as partes que eram convenientes.

É comum que muitos acreditem que Olavo de Carvalho é o autor desta "tese", mas como tudo que Olavo diz, isso ele também copiou de outra pessoa. O proponente original da teoria foi Heitor de Paola, que escreveu em um livro no qual falou sobre o misterioso Pacto de Princeton.


Pois bem.

Para simplificar, o suposto pacto teria ocorrido em Princeton, nos EUA, e contava com a participação de Lula e FHC, isto em 1993. Ambos estiveram na presença do secretário de Estado de Bill Clinton para negociar uma parceria. O objetivo? Uma hegemonia esquerdista na América Latina. Lula representava o Foro de São Paulo, FHC representava o Diálogo Interamericano. Eles teriam acordado, então, que PT e PSDB trabalhariam juntos se revesando no poder para sempre, apenas fingindo serem oposição um ao outro. Um jornal cubano teria publicado a notícia sobre o encontro, na época, mas o governo de Fidel viria a destruir a edição depois para esconder as provas. (Algumas versões também dizem que o pacto ocorreu em Cuba, não nos EUA).

Tudo muito bonito. Aparentemente descobriram uma conspiração contra o povo brasileiro envolvendo os dois partidos mais influentes (depois do MDB, é claro). O único problema é que as evidências deste encontro são inexistentes. Até mesmo o dito jornal cubano que foi retirado de circulação, por exemplo, jamais foi encontrado para provar. 

De todo modo, ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo não existindo provas até seria possível discutir o assunto e considerar esta hipótese. O caso, entretanto, é que há falhas estruturais na tese e também existem inúmeras questões que acabam sempre ficando sem resposta. Além disso, o caso é tratado como verídico por muitos, e eles consideram que a ausência de provas é, na realidade, uma prova de que teriam destruído as provas. Outra falha lógica que deixa tudo muito inconsistente.

A primeira pergunta que fica sem resposta é a seguinte: Se FHC e Lula pretendiam se perpetuar no poder através de um revesamento, por qual razão o PSDB nunca mais conseguiu governar o país desde 2002? 

Se a estratégia das tesouras é real, isso significa que PT e PSDB precisariam se revesar periodicamente. Mais do que isso, eles necessitariam deste revesamento até para que o plano desse certo. Tudo o que o PT vem sofrendo nos últimos anos é justamente o resultado de o partido ter ficado tempo demais governando. 

O próprio FHC, verdade seja dita, nunca mais quis governar. Ele saiu de cena com o fim de seu mandato e nem tentou se candidatar a mais nada. Sarney, que presidiu o país na década de 80, virou senador, além de ter governado o Maranhão. Collor também continuou ativamente na política. O próprio Lula, mesmo que não tenha mais sido candidato, ainda assim permanece até hoje como uma liderança política influente. FHC, por outro lado, decidiu se aposentar da política. Ele nem mesmo lidera seu partido, sua posição é mais a de um "presidente de honra" do que a de um líder.

Esta é uma das muitas pontas soltas nesta teoria. 

O PSDB lançou péssimos candidatos desde aquela época. Com exceção de Aécio, que até chegou perto de vencer - e que era elogiado por Olavo com certo exagero, Alckmin e Serra nunca estiveram realmente no páreo. Qual o sentido de dois partidos combinarem um revesamento no poder para, depois, apenas um deles governar e o outro ficar para escanteio? O que o PSDB poderia ganhar com essa situação? Por que os tucanos lançariam José Serra por duas vezes, mesmo com todas as análises sugerindo que não seria a melhor opção?

Perguntas que ficam sem resposta.

A segunda pergunta mais importante a ser feita é: Como é que Dilma se encaixa nessa história?

Dilma Rousseff era uma militante radical e nem mesmo pertencia ao PT. Ela se criou no PDT do Rio Grande do Sul e sua carreira política se deu ocupando cargos de confiança. Em 2010, no entanto, Lula decide lançá-la como candidata à presidência da República. Uma figura sem nenhum carisma, sem habilidade política e sem experiência. Se a estratégia das tesouras fosse um fato, faria mais sentido PT e PSDB conversarem para escolherem um bom candidato tucano que pudesse governar. Ou então o PT poderia abrir mão dessa disputa e deixar que os tucanos levassem com folga.

Assim mesmo, Lula lançou Dilma e ela venceu. Um desastre político de grandes proporções e até meio óbvio. Vários analistas já anunciavam que o governo Dilma seria desastroso para os petistas. Gente de dentro do próprio partido sabia que era uma péssima ideia. Mas foi o que aconteceu.

O que veio depois foi uma sucessão de trapalhadas que levaram a população a se enfurecer com o governo. Dilma desidratou pouco a pouco, e mesmo conseguindo uma reeleição apertada contra Aécio, dali em diante seu governo desmoronou.

É importante frisar, aliás, que o plano de Lula era voltar para o cargo já em 2014. Dilma, no entanto, firmou o pé e decidiu ficar. Este foi, de longe, o maior erro estratégico do partido. Até os esquerdistas sabiam que o governo Dilma não iria muito longe. Há inúmeros comentários feitos por intelectuais e políticos, anteriores ao impeachment, que já apontavam para esta direção. 

A decisão de Dilma em permanecer no cargo foi a pá de cal que o PT poderia ter evitado se Aécio vencesse a eleição. Para o próprio PT, não haveria nada melhor do que a vitória do PSDB em 2014. É só pensar um pouco. Se Aécio levasse aquela eleição, ele pegaria um país dividido, economicamente quebrado, com uma crise institucional e política sem precedentes, e de quebra ainda teria que lidar com uma base governista totalmente rachada.

Se o Pacto de Princeton é real, faria muito mais sentido que o PT deixasse os tucanos levarem a vitória. Isso teria salvo o partido de inúmeros problemas e, no fim das contas, eles teriam seus aliados tucanos no poder. No entanto não foi o que aconteceu. O PT literalmente fez o diabo para vencer a eleição. Dilma se esforçou ao máximo para derrotar Aécio. Lula atuou como porta-voz de Dilma mesmo a contragosto.

No final de tudo, o resultado foi um impeachment, a prisão do maior líder do partido, duas derrotas eleitorais sucessivas (2016 e 2018), dezenas de processos contra grandes nomes do partido, além de uma diminuição absoluta do poder que o PT possuía nas cidades e no Congresso. 

A terceira pergunta: Onde se encaixa o MDB?

MDB é um partido que existe desde que Deus criou Adão. Portanto o partido também já existia muito antes do Pacto e já era desde sempre uma forte liderança política no país. É indiscutível que não haveria nenhum pacto em que o MDB não estivesse envolvido. 

Só que existe, no entanto, uma questão curiosa aí. Ao mesmo tempo em que o MDB é um partido odiado por seu fisiologismo, ele também é o partido que de tempos em tempos nos salva de alguma catástrofe institucional. É preciso lembrar que não haveria impeachment de Dilma sem que o MDB tivesse desejado. Não haveria Plano Real sem que o MDB tivesse concordado. Nem mesmo haveria política como a conhecemos sem que o MDB estivesse de algum modo envolvido.

Não é por acaso, aliás, que o novo governo de Bolsonaro, mesmo que em seu discurso prometa fazer tudo diferente, na prática está aliado ao MDB desde as eleições. Sim, meu caro. Você acha mesmo que a candidatura do Meirelles era séria? Se eu sabia que ele nunca iria vencer, se a minha avó sabia que ele não venceria, se até mesmo o seu cachorro sabia que ele perderia, você realmente acredita que eles também não sabiam?

A candidatura de Henrique Meirelles é a cara do MDB. Jogaram para perder, esperaram o resultado do pleito e, depois, quando já estava decidido quem iria governar, eles colaram. Foi exatamente o que fizeram em 1994 com a candidatura do Quércia. É assim que o MDB atua. É por isso que este partido estava presente até mesmo na Ditadura Militar, quando só havia dois partidos.

Conclusão

Além da ausência de provas, o problema da estória sobre a estratégia das tesouras é que ela ignora a realidade política e o contexto de todos os fatos. Se PT e PSDB tinham um plano maquiavélico para governar o Brasil para sempre, então é preciso admitir que este plano falhou miseravelmente. Primeiro porque não houve revesamento. Depois de FHC - e antes também - o PSDB nunca mais governou. Segundo porque hoje nenhum dos dois governa.

Muitos dos problemas que o PT enfrentou não teriam ocorrido, aliás, se houvesse o tal revesamento. Não fazia sentido colocar e depois manter Dilma no cargo enquanto seria bem mais fácil para o partido entregar o poder ao aliado tucano e conseguir um respiro. 

Além disso tudo, é preciso analisar os riscos envolvidos. Uma estratégia como esta demandaria certo nível de controle político e social, algo bastante difícil num país pluripartidário em que as coisas costumam ser meio flexíveis. Os partidos podem lançar candidatos às pencas se quiserem, eles não o fazem porque muitas vezes é melhor para um partido se coligar com outro. Mas o que impediria Bolsonaro de ter se candidato já em 2014? O que impediria que Marina Silva ou Luciana Genro tivessem vencido a eleição? A não ser que as urnas sempre tenham sido fraudadas - o que levantaria suspeitas sobre a eleição de Bolsonaro - nada disso faz muito sentido.

É verdade que FHC e Lula sempre foram amigos. Mas também é verdade que Bolsonaro é amigo de Leonardo Picciani e que já até foi amigo da Jandira Feghali, cujo partido, o PCdoB, era respeitado pelo atual presidente dos anos 90 até a década passada, quando ele mesmo sugeriu que Aldo Rebelo deveria ser Ministro da Defesa.

Se a nossa política funcionasse como a dos EUA, por exemplo, essa estratégia seria praticável ao máximo - e talvez até seja desse jeito por lá. Mas aqui as coisas são diferentes. Aqui um grupo de liberais com dinheiro conseguiu fundar um partido poucos anos atrás. Aqui um deputado federal de baixíssimo clero pode embarcar em um partido nanico e ganhar. Aqui uma eleição pode ter tantos candidatos quanto partidos, e são muitos partidos. Por aqui até um sujeito histérico como Enéas Carneiro pode formar um partido e ser candidato ao cargo que ele quiser.

Talvez a estratégia das tesouras até pareça real aos olhos inocentes e insensatos por conta da nossa política altamente fisiológica. É comum, realmente, que mesmo partidos rivais façam alianças de ocasião. É verdade, por exemplo, que os petistas no Senado ajudaram Aécio a escapar da cassação. Mas também é verdade que o PSC, na época com Bolsonaro, se aliou ao PCdoB no Maranhão.

No exato momento em que escrevo isso o governo Bolsonaro está apoiando a reeleição de Rodrigo Maia para presidência da Câmara, e há gente do partido no Senado que está pensando em apoiar Renan Calheiros. Tudo em nome da governabilidade, é claro. Mas é assim que a banda toca por aqui. Sempre foi. O governo Bolsonaro também está aliado ao MDB, o mesmo MDB que na eleição passada estava na chapa com o PT. O PSL de Jair Bolsonaro na eleição passada apoiou Marina Silva.

Se todos esses fisiologismos servem como base para a teoria do Pacto de Princeton, então os propagadores desta teoria terão de admitir que o pacto é bem maior do que parece. Talvez todos os partidos estejam inclusos nesta, até mesmo o do atual presidente. Sinceramente, duvido que eles aceitem essa opção.

A verdade, neste caso, é que a teoria maluca propagada aos quatro ventos por Olavo e seus capangas tem uma só finalidade: criar tensão e forçar a tática do beco sem saída, que foi amplamente utilizada durante a campanha recente. Ou você os apoia, ou cairá nas mãos "dos inimigos do povo". 

O Pacto de Princeton é, sim, uma teoria conspiratória, mas não é coisa de maluco. Trata-se de uma tática criada por embusteiros que querem fazer você agir como maluco.
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