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Como funciona o poder

Tenho visto muitos comentários acerca daquilo que o atual presidente deveria fazer, ou sobre como ele deveria fazer, e em geral esses comentários são feitos por pessoas que nunca estiveram no poder, ou seja, por pessoas comuns. O que é óbvio para qualquer um que estude profundamente a política, neste caso, acaba ficando distante do que consiste na opinião da maioria sobre como o poder realmente funciona. Neste artigo pretendo explicar de forma bem simplificada a questão, mas não prometo ser breve.


Em qualquer tipo de governo, seja ele uma monarquia ou uma república, uma ditadura ou uma democracia, a maneira como as forças políticas atuam não muda em sua essência, ela só se diferencia em graus. 

Quando falamos de uma ditadura, por exemplo, é natural que se pense no tirano como alguém em situação aparentemente confortável, mas na realidade ele corre riscos para manter seu poder. Quando se trata de uma democracia as pessoas costumam entender que o governante seja mais frágil do que ele realmente é, uma vez que seu poder é temporário e mais claramente limitado. Mas as coisas nem sempre são como parecem.

Imagine que Adolf Hitler, em sua sanha autoritária e psicótica, tivesse que cumprir sua missão sozinho. Você sabe que ele não poderia. O que garantiu seu poder e seus objetivos foi, em primeiro lugar, a cadeia de obediência. Hitler não poderia ter matado tantos judeus sem que houvesse abaixo dele soldados e oficiais dispostos a cumprirem a tarefa. Se ele tivesse que matá-los com as próprias mãos, ainda que nenhum dos judeus reagisse, sabemos que ele não teria tempo para isso nem mesmo se vivesse cem anos. Sem a obediência, Hitler teria sido apenas um maluco internado em um hospício.

O conceito da cadeia de obediência é bem interessante e ele é fundamental para entender o poder. Normalmente as pessoas pensam em cadeias de comando, porque elas próprias são ao menos parcialmente obedientes por acreditarem que quem está no poder realmente tem o poder. Mas a autoridade em si não significa muita coisa. Qualquer general ou presidente pode ser ferido ou até mesmo assassinado por um mero trombadinha que rouba madames no semáforo. Ele é humano como qualquer outro. O que impede alguém de simplesmente atirar no presidente é a obediência.

A ideia, a princípio, parece meio absurda, mas sem a obediência dos subalternos um rei, presidente ou general não possuem poder algum. Nesta hora você talvez esteja se questionando por qual razão as pessoas simplesmente não desobedecem, e a resposta é simples: elas geralmente não querem.

Se a obediência é a chave para entender o poder, então é preciso entender a obediência, e para isso é preciso saber como um líder consegue fazer com que diversas pessoas o obedeçam quando elas poderiam simplesmente não fazê-lo. Neste caso temos que entender a estrutura social e até mesmo alguns princípios básicos da psicologia, como indivíduo e como massa.

A psicologia nos mostra que as ações praticadas pelas pessoas costumam levar em consideração a dor e o prazer. Em termos sociais poderíamos traduzir como medo e esperança. Mas não entenda estes termos com preconceitos linguísticos, entenda-os da forma mais pura possível. O ser humano é um animal social. A luta da humanidade consiste em buscar o prazer e evitar a dor, por isso tememos e por isso temos esperança. Quem melhor manipular estes sentimentos também pode manipular as massas.

Um governante, seja ele ditador ou republicano, precisa garantir seu poder controlando aqueles que estão a sua volta. Se ele não os controla, então eles o controlam. Para citar exemplos mais óbvios, Dilma Rousseff não foi capaz de manipular sua base. Ela perdeu apoio daqueles que garantiam sua estadia no Palácio e por isso foi derrubada. É claro que para chegar a acontecer podemos enumerar uma sucessão de erros.

O primeiro erro de Dilma foi o de não ter sabido lidar com os sentimentos da massa. Em uma democracia isso importa em certo nível. Um presidente até pode desprezar sua população, mas jamais pode deixar que a população perceba isso de forma tão clara. Mentir pode ser uma manobra útil para vencer a eleição, mas não é uma boa manobra se você for descoberto logo depois, porque as coisas começam a sair do controle.

Se Dilma não conseguiu controlar o medo e a esperança da população, isso naturalmente causou a ela transtornos diante de seus aliados. Assim como ela queria manter o poder, muitos de seus aliados queriam o mesmo. Mas pegaria muito mal para eles permanecerem ao lado de alguém que se tornou politicamente tóxico. Como vivemos em uma democracia, todos aqueles deputados, senadores e até mesmo líderes partidários sabiam de uma verdade irrevogável: eles precisariam vencer a próxima eleição para manter seu poder.

No fim das contas sabemos hoje que as ações de Dilma causaram a destruição dela, de todo o seu governo e até mesmo de seu partido, o PT, que embora ainda exista está em seu pior momento desde a fundação. Lula, neste ponto, era muito mais habilidoso. Ele controlava muito bem os sentimentos da massa e também controlava seus aliados com agrados ou chicotadas sempre que necessário. Com isso garantiu seu poder e sua popularidade.

Contudo, mesmo em uma ditadura, não é correto pensar que o tirano simplesmente faça o que quer. Ninguém faz sempre o que quer, e menos ainda quem está no poder. É muito fácil fazer o que quer quando se é uma pessoa sem muito a perder, sem ambições e sem nenhum plano de longo prazo. Quando se está no poder em uma ditadura existem riscos constantes com os quais é preciso lidar.

No geral um ditador precisa no mínimo garantir que forças armadas estejam ao seu lado. Quem pretende garantir seu poder pela violência deve sempre se prevenir de ataques feitos por rebeldes, por governos rivais ou até mesmo por seus cidadãos. Mas como ele vai garantir isso? Na maioria das vezes com bons subornos, em outras vezes com trocas de favores, como em qualquer cenário político normal. O tirano pode se dar ao luxo de ser odiado pela população desde que ele tenha como garantir aos seus aliados algum ganho que os mantenha no posto. Mesmo assim ele corre o risco de ser traído, e a única forma de amenizar este risco, já que evitá-lo é impossível, é fazer com que todos aqueles que estão ao seu lado permaneçam satisfeitos.

A população pode ter medo do ditador, mas em geral ele não pode causar medo em seus aliados. Quando ditadores passaram dos limites em boa parte dos casos eles se deram mal, porque não há como manter o poder sozinho. Sem aliados poderosos ninguém governa, seja em uma ditadura ou em uma democracia.

Recentemente, diante do caso dos parlamentares do PSL que foram à China, houve muitas reações exaltadas. Alguns destes parlamentares gravaram vídeos até mesmo xingando a população, como foi o caso de Daniel Silveira. Vi no Facebook alguém dizer que o presidente deveria chamar estes parlamentares e colocar uma prensa neles, o que é uma visão infantilizada da política. O poder não funciona assim.

É evidente que um presidente da República tem a possibilidade de resolver problemas complexos como este, é algo que está ao seu alcance. Mas a forma como ele fará isso é que vai determinar o sucesso do ato. Simplesmente dar uma prensa em deputados eleitos pode ser pouco efetivo, inclusive pode enfraquecê-lo. E se ele perder o apoio destes parlamentares? E se esta prensa acabar resultando em uma debandada?

No conceito da hierarquia tradicional entendemos que o presidente estaria acima de todos os poderes, mas a realidade é um pouco mais complicada. Embora teoricamente o presidente seja o mais poderoso de todos os políticos, na prática seu poder depende e muito daqueles que estão abaixo. Em uma democracia o presidente não governa sem o apoio do Congresso. E se ele não governar, não mostrará serviço à população, o que gera revolta e insatisfação, e depois resulta naturalmente na insatisfação de seus aliados. Se seus aliados ficarem insatisfeitos demais, o poder do presidente se torna instável. Instabilidade gera fraquezas e fraquezas geram a queda. 

É por conta disso que a corrupção é comum tanto em democracias quanto em ditaduras. O PT não desviou bilhões das estatais apenas para enriquecer a conta bancária de seus membros, mas principalmente para manter o poder estável o quanto pudesse. Por muitos anos isso deu certo, o problema foi o tempo.

Em uma democracia os desvios e as propinas conseguem sanar temporariamente os problemas, mas não são capazes de comprar permanentemente o apoio de ninguém. Roberto Jefferson entregou o esquema do Mensalão não por ser ético, mas porque sua fatia era menor do que ele achava que deveria ser. E neste caso ele se deu bem, pois conseguiu se manter a salvo ao longo de anos e hoje todos esqueceram que ele também era corrupto. 

Se o governo mantém por muito tempo a população insatisfeita, as propinas precisam ficar mais gordas para que seus aliados se mantenham firmes na posição. As eleições começam a custar mais caro, as trocas de favores começam a se tornar mais incômodas, e muitas vezes o sistema pode ruir pela ausência dos recursos necessários. 

A cadeia de obediência funciona porque as pessoas agem por uma lógica natural de sobrevivência. Quem teria coragem para se rebelar contra Hitler dentro do exército se ele tinha ao seu lado todo o alto comando? Não faria sentido. Qualquer um que se rebelasse acabaria morto, cedo ou tarde, porque aqueles que estão mais abaixo na cadeia são os que mais temem as consequências. No Haiti, durante a ditadura de Papa Doc, era comum que se matasse a família, os amigos e até mesmo a cidade inteira daqueles que ousassem enfrentar o seu poder. A maior fragilidade do poder de Papa Doc era sua saúde debilitada. No final das contas ele permaneceu no jogo e morreu de causas naturais deixando o filho no poder.

Novamente entra em cena a psicologia. Dor e prazer determinam grande parte das ações humanas. Quem entra para a política quer ter prazer, e este prazer deriva de benefícios óbvios como o dinheiro e o desejo comandar. É por isso que em geral a política contempla os piores de nós. E mesmo quando alguém honesto e bem intencionado chega ao poder as coisas não costumam mudar tanto, porque para manter o poder é necessário fazer alguns sacrifícios. 

Geralmente o governante prefere manter seu trono do que "fazer o que é certo". A moral na política é uma piada de mau gosto, simplesmente não é praticável. A ideologia na política é, muitas vezes, uma questão absolutamente tangente, ela não norteia as decisões dos governantes, no máximo pode servir de instrumento para levá-lo até o cargo. O que define a política é e sempre foi a disputa pelo poder, e vence aquele que tem maior habilidade para chegar até o Palácio e permanecer nele.

O único poder inquestionável é o fuzil e a disposição para puxar o gatilho. A política não passa de um castelo de cartas.
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