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Ainda sobre a "estratégia das tesouras": A simplificação como fundamento de tudo


Como abordado no artigo imediatamente anterior a este, a tal estratégia das tesouras, que tem a pretensão de explicar fenômenos complexos dos últimos 30 anos da política brasileira com uma simplificação absurda, é de fato um embuste. Não há qualquer base para sustentar essa ideia e há fatos aos montes que sugerem outras explicações muito mais realistas.

No entanto, creio que seja importante agora tratar do tema de um modo mais abrangente. No outro texto quis apenas apresentar alguns fatos e certas relações que colocam toda a teoria em xeque. Agora quero explicar sobre como as simplificações, constantes em nossos analistas políticos, costumam levar ao erro.

Sempre que o assunto é política nada é tão simples quanto parece. Um exemplo disso pode ser visto na forma como grande parte da imprensa e os partidos de esquerda e de centro trataram a figura de Jair Bolsonaro nos últimos anos - o que o ajudou muito a vencer. 

Bolsonaro foi tratado como uma caricatura, sempre uma simplificação grotesca. Rótulos eram fabricados diariamente e ainda são. "Machista", "homofóbico", "racista", "xenófobo" e por aí vai. Os jornais ocuparam grande parte de suas manchetes enfatizando falas "polêmicas" do deputado, assim como têm feito com a ministra Damares. O que realmente importa, ou importava, sempre foi deixado de lado.

O verdadeiro Jair Bolsonaro é bem mais do que alguns rótulos forjados no DCE da USP. Não se pode explicar um fenômeno político desta forma, assim como não se pode resumir Lula a um mero analfabeto cachaceiro. Aliás, é bem provável que Lula nem seja analfabeto, talvez nunca tenha sido.

O que quero dizer? 

Se nós tratarmos Lula como um cachaceiro ignorante que não sabe escrever, estaremos deixando de lado o fato de que ele conseguiu arregimentar milhões de pessoas ao longo de décadas. Deixaremos de lado que ele não só chegou à presidência da nação, mas também se manteve nela e ainda conseguiu emplacar sua sucessora por duas vezes. Um mero cachaceiro não faria nada disso. Um cachaceiro pararia em um bar e lá ficaria durante todo o domingo, certamente não iria desperdiçar seu tempo comandando multidões vermelhas país afora.

Bolsonaro é a mesma coisa. Ele está muito além de ser apenas um tiozão preconceituoso. Bolsonaro é político há muito tempo. Ele teve a inteligência para se manter como deputado sem qualquer realização por mais de duas décadas, e depois de nada ter feito como deputado conseguiu virar presidente. E ainda que tivesse perdido a eleição, não se pode negar que até mesmo antes ele já era um ícone capaz de gerar paixões. Um tiozão preconceituoso não consegue fazer famílias brigarem para defendê-lo, assim como não consegue levar centenas de milhares de jovens a preferirem discutir na internet no que transar com suas respectivas namoradas.

A simplificação é sempre uma explicação preguiçosa. Os adversários de Bolsonaro não quiseram entender o que se passava, eles preferiram partir para uma reação simples e rotulá-lo. Como eu já dizia em 2014, Bolsonaro não seria destruído através desse tipo de jogo. Ele é imune a isso. As pessoas que idolatram Bolsonaro não o fazem apesar das polêmicas, mas justamente por causa das polêmicas. Para desconstruí-lo o caminho era outro. Seria necessário mostrar suas contradições, seria útil explicar às pessoas o que ele fez - ou não fez, na verdade - como deputado. Chamá-lo de machista e homofóbico foi algo que tentaram desde 2011, e mesmo sem que isso surtisse qualquer efeito continuaram e esperaram um resultado diferente a cada tentativa.

Voltando ao tema central, que no caso era a estratégia das tesouras, reforço que sua maior falha é tentar explicar a política dos últimos 30 anos, em um país de dimensões continentais, apenas com a anedota sobre um suposto acordo. É como se um único evento fosse capaz de nos dizer, de forma certeira, tudo o que ocorreu desde 1994 até agora. Um único evento que, aliás, não sabemos se aconteceu de verdade.

O referido Pacto de Princeton, se fosse mesmo verdade, jamais poderia ter ocorrido somente entre duas forças políticas. Não no Brasil. PT e PSDB foram realmente grandes forças da política nacional, de certo modo ainda são, mas os dois juntos não chegam a representar um terço de todas as forças que atuam dentro do país. 

Além dos mais de trinta partidos, que poderiam inclusive ter lançado candidaturas em todas as campanhas desde 1989, existem ainda as forças políticas que atuam fora do Estado. A maçonaria é uma delas. Outra é a Igreja, que tem grande influência dentro da sociedade. No Brasil existem as Forças Armadas, movimentos políticos dos mais diversos, entidades empresariais e todo tipo de sindicatos e associações de classe.

Para o tal Pacto de Princeton funcionar, não bastaria que PT e PSDB quisessem. Seria preciso que eles tivessem controle quase absoluto sobre os demais partidos e sobre boa parte das entidades mencionadas. É certo que em algum momento pode existir convergência de interesses, mas isso não dura muito tempo. Nem mesmo o PT converge o tempo inteiro com os interesses do PT. 

Dentro de quase todos os partidos existem correntes de disputas internas. No PT havia diversas alas mais radicais que buscavam espaço, e algumas delas até saíram do partido em determinado momento para criar novas forças, como aconteceu com o PSOL e a REDE. No PSDB ocorre o mesmo. João Doria e Alckmin são de uma ala, José Serra e Alberto Goldman são de outra. Estas disputas internas seriam um incômodo constante para que o pacto fosse cumprido, especialmente considerando que FHC exerce pouco poder dentro do partido.

As jornadas de junho de 2013, por exemplo, também servem para mostrar como simplificações levam ao erro. Aquelas manifestações foram o início do impeachment de Dilma Rousseff. Ali o governo dela começou a desmoronar. Entretanto, vale lembrar, tudo começou com os protestos do Movimento Passe Livre contra o aumento de vinte centavos na passagem em São Paulo.

O MPL, como todos sabem, é um movimento de extrema-esquerda e tem entre seus principais membros uma porção significativa de petistas. Quando eles começaram os protestos, é natural se pensar que jamais previram tantos desdobramentos. Imagine, então, que houvesse mesmo um plano mirabolante mantido por alguns grandes líderes, e aí chega o MPL e destrói tudo com uma passeata. Será que o plano era mesmo tão eficiente assim? Claro que não. Um plano que pode ser derrubado pelo mero acaso nem pode ser chamado de plano, é no máximo um esboço.

A questão, neste caso, é que mesmo que existisse um Pacto de Princeton, mesmo que PT e PSDB tivessem concordado em se revesar no poder, o plano seria impraticável dessa forma. Não havia como os dois partidos garantirem que o plano daria certo, nem quanto tempo poderia dar certo. Há uma imensa quantidade de fatores que afetariam direta e indiretamente o cumprimento do pacto. 

Sendo assim, é correto supor que mesmo que Olavo e Heitor de Paola não estejam mentindo sobre a existência do pacto - embora a ausência de provas levante esta justa suspeita, ainda assim eles extrapolaram intencionalmente o evento com o intuito de gerar alarde. Este não é o papel de um bom analista político, mas de um teórico da conspiração que quer brincar de deus. Certamente também não é o papel de um filósofo, pois ele deixa de lado a busca pela verdade em troca de alguns likes e afagos de seus pupilos.

A simplificação, neste caso, é bem barata, mas ela custa caro. Levar intencionalmente as pessoas ao erro é o que fazem os charlatões. E é isso que Olavo sempre foi, um charlatão. Trata-se de alguém muito inteligente e sagaz, sendo até capaz de atuar com altíssimo teor de dissimulação. Ele se aproveita da leiguice que é natural ao brasileiro e obtém excelentes resultados para si próprio, não é por acaso que viva disso há anos.

Em geral o que leva muitos a idolatrarem Olavo de Carvalho não é seu conteúdo, mas a sua forma. É inegável que o guru seja habilidoso na maneira como lida com os assuntos, muitas vezes até sendo engraçado e descontraído. Também não se pode negar que seja um ótimo escritor, que tenha um estilo próprio e que saiba falar bem em público. O que falta ao Olavo não é talento, é caráter. E o que falta aos seus seguidores grande parte das vezes é conhecimento. Em um país no qual as pessoas não costumam estudar nenhum assunto a fundo, qualquer malandro pode ser guru.
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