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Caso do ex-assessor de Flávio Bolsonaro mostra o preço do falso moralismo

Li ontem um artigo escrito por meu colega Luciano Ayan a respeito do caso de Fabrício, ex-assessor de Flávio Bolsonaro que estaria diretamente envolvido em um suposto caso de corrupção. A notícia tem sido o assunto dos últimos dias, tratada até como possível lavagem de dinheiro ou caixa dois. Mas não me cabe aqui fazer papel de investigador, vou tratar apenas das questões políticas ligadas ao caso.


O texto escrito por Ayan fala sobre o frame, sobre como Fabrício precisa ser trazido à luz para explicar o que ocorreu. É um bom texto e até recomendo a leitura (aqui), mas ele esconde um fato que realmente importa: Quem quer dar explicações?

Certamente não a família Bolsonaro. Se quisesse já teria feito. E pode até ser que nenhum crime tenha ocorrido ali, mas nada disso tem importância diante do cenário que foi criado por eles próprios. Não é preciso esforço para lembrar que Jair Bolsonaro se elegeu presidente com base em dois grandes pilares, sendo um deles - talvez o principal - o da segurança pública. O outro, como se sabe, foi o de combate à corrupção.

Não só durante a campanha, mas durante os últimos quatro ou cinco anos, toda a estrutura psicológica criada ao redor do bolsonarismo foi baseada no princípio inegável de que nosso futuro presidente é uma pessoa pura e que ele jamais esteve envolvido em nenhum esquema. Além disso, inúmeros adversários foram brutalmente atacados com a alegação de serem corruptos ou meramente associados a algum corrupto. Houve até casos mais graves em que a turba mimada partiu para cima de pessoas inocentes, como ocorreu vergonhosamente a membros do partido Novo.

Diante destas circunstâncias, criadas pelo próprio Bolsonaro e por seus apoiadores, fica fácil entender a situação. O falso moralismo tem seu preço. Se Bolsonaro tinha o direito de apontar para todos os seus adversários e chamá-los de corruptos por qualquer mínimo deslize, e se ele e sua turma não estavam dispostos a distinguir criminosos condenados de pessoas que foram meramente acusadas superficialmente de algum crime, é evidente que ele não poderá cometer o menor erro.

Em minha opinião não há político algum que esteja 100% limpo. Não no Brasil. Para mim isso não existe e aqueles que acreditam em pureza são inocentes ou simplesmente idiotas. No entanto, do ponto de vista prático, o que realmente interessa é saber que o futuro presidente jamais terá sossego diante de seus inúmeros adversários, muitos dos quais poderiam até ser seus aliados (como, repito, o partido Novo).

Agora não estamos mais falando de um mero deputado do baixo clero. Trata-se de um presidente, o mais alto cargo político do país. Se o assessor de um ministro falhar isso recairá sobre ele, assim como recaíram sobre Lula e Dilma as diversas falcatruas cometidas por membros de seu governo. E já que Bolsonaro se construiu como um pilar da moralidade e da anticorrupção, também é de se esperar que o mais remoto descuido lhe custe muito mais caro do que aos seus antecessores.

É claro que você não verá esse nível de maturidade e clareza em muitos blogs de direita. Grande parte deles acabou entrando de cabeça nessa onda. Seria pedir muito que recuassem justo agora, quando estão tão perto daquilo que almejaram. O argumento usado será o de sempre, vão dizer que "deve ser investigado e punido conforme a lei". Mas, é claro, se for mesmo investigado e punido conforme a lei, haverá depois algum tipo de pretexto banal para tentar justificar tudo isso ou, pior, para tentar validar a ação como algo inofensivo ou um "crime menor". É o tipo de benevolência que não tiveram nem mesmo com Gustavo Franco, que foi inocentado após falsas acusações da extrema-esquerda.

Sempre foi dito aqui neste blog que esta conversa moralista custaria caro. Um presidente não governa sozinho, e sendo assim não fará muita diferença se Bolsonaro em pessoa for mesmo um homem honesto. Para que seu governo se torne inviável basta que algum zé mané qualquer de sua administração decida desviar dez reais para comprar um Kinder Ovo. 

Em tempo, colo aqui e respondo embaixo o penúltimo parágrafo do texto de Ayan:

Achar Fabrício para que ele esclareça tudo com clareza passa a ser uma prioridade. Claro que isso não impede um início de governo. Com tanta popularidade, há lenha para queimar. Mas é claro que se trata de um ponto de desgaste, que está sendo ampliado exatamente pela falta de respostas adequadas. Nesse ponto, tem muita gente que investiu suas emoções e olha ressabiado, quase com o coração partido. 

Não existe isso de "achar Fabrício". A essa altura o estrago já está feito, a imagem já está arranhada. Pode até ser útil juridicamente para evitar qualquer julgamento, mas no campo político a demora na resposta (além das respostas evasivas) já é o bastante para erguer um sem número de suspeitas. Ademais, é importante lembrar que ainda neste ano, antes das eleições, veio a tona o caso da suposta funcionária fantasma do então deputado. O caso permanece sem uma finalização adequada. 


Política pura é uma lenda. Um mito.
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