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As eleições e o otimismo

O resultado das eleições de ontem foi um aviso, uma resposta popular ao que a política se tornou no país nestes últimos tempos. A revolta de 2013 finalmente conseguiu o que queria: renovação.


Nomes fortes de grandes partidos ficaram de fora. Romero Jucá, homem que protagonizou em todos os governos desde FHC, não conseguiu se reeleger ao Senado. O mesmo ocorreu com Eunício Oliveira. Em Minas Gerais, Fernando Pimentel perdeu já no primeiro turno e Dilma nem chegou perto da vaga que lhe parecia garantida. Em Santa Catarina, Mauro Mariani ficou fora do segundo turno, e grandes nomes que há anos comandavam o estado acabaram não chegando em um resultado favorável, como o governador Raimundo Colombo, que conseguiu apenas a quarta colocação para o Senado.

Esse cenário se repetiu em diversos estados e também na eleição presidencial. O "outsider" da campanha, Jair Bolsonaro, chegou realmente perto de levar no primeiro turno. Sua votação foi expressiva e ele ficou isolado na liderança. Ainda que seja possível, é pouco provável que Haddad consiga reverter o jogo nessa reta final da campanha.

É preciso ser dito que nenhum analista político considerava possível o resultado obtido pelo PSL ou pelo NOVO. Tudo indicava que eles não elegeriam muitos quadros fora de São Paulo. O MBL também conseguiu eleger Kim Kataguiri e Arthur do Val, ambos com uma votação expressiva. E não dá para ignorar a votação extremamente alta de Janaína Paschoal.

O recado foi dado, em alto e bom tom. O povo quer mesmo renovação na política. Mas ela virá? Isso depende...

Assim como a renovação foi alta nas urnas, também a expectativa sobre ela está elevada. Muitos esperam que o país se revolucione com isso. Muitos acreditam que tudo vai mudar de forma radical daqui para frente. E pode até ser que isso ocorra, assim como pode ser que não. Mas o que precisa ficar claro que é agora não há mais desculpas.

Enquanto deputado federal Jair Bolsonaro foi uma nulidade. Nunca fez nada realmente significativo pelo país, tampouco fez pelo Rio de Janeiro, e ele sempre usou a justificativa de que não tinha aliados por não ser corrupto. Agora, entretanto, não haverá pretextos. Com a maior bancada na Câmara, com vários senadores e com cargos em quase todas as assembleias legislativas, Jair Bolsonaro terá a tão sonha governabilidade. Ele terá apoio, e não só do PSL. Certamente muitos partidos do centro irão apoiá-lo, uma vez que esta eleição provou aos macacos velhos da política que está na hora de aprender truques novos.

É óbvio que seu governo sofrerá uma oposição violenta da extrema-esquerda. Petistas ainda conseguiram muito espaço no Congresso, e a bancada do PSOL cresceu de 6 para 11 deputados federais. Não é um número insignificante. Mesmo assim o quadro é de modo geral favorável a um governo Bolsonaro, ele terá uma boa bancada, terá aliados, e com tudo o que se mostrou é natural que muitos governadores também venham a apoiá-lo. 

Qual pode ser o problema?

O que vejo de mais óbvio é que a expectativa alta traz também uma grande decepção. Hoje muitos desses nomes eleitos pelo NOVO, PSL e MBL são desconhecidos pela maioria, hoje eles são críticos e acham que são capazes de mudar o país. Mas há uma distância entre o discurso e a prática que vai bem além do caráter. Às vezes é questão de competência e de entendimento da situação.

É preciso ter em mente que boa parte dos novos políticos não possui experiência ou até mesmo conhecimento teórico de como funciona a máquina pública. Muitos deles também não estão acostumados a lidar diariamente com a malandragem institucionalizada em nosso sistema. Eles serão capazes de lidar com tudo e ainda realizar aquilo que prometeram? É possível, mas me mantenho cético até que os resultados apareçam.

Se tudo correr bem, se Bolsonaro fizer mesmo um bom governo e conseguir cumprir suas inúmeras promessas (que em grande parte são quase impossíveis), ele terá conquistado o coração do povo o suficiente para se reeleger e talvez até fazer um sucessor. Mas e se ocorrer o inverso? Aí ele terá causado a maior de todas as decepções em nossa recente história, e entrará para o mesmo clube de Lula, Collor e tantos outros líderes populares que desgraçaram este país.

Particularmente estou cético sobre a atuação do PSL. O partido está cheio de indivíduos com ego maior do que o bom senso. Mantenho certa fé na atuação de Arthur do Val em São Paulo, acho que ele é um sujeito capaz e bem determinado. Sobre o NOVO, é impossível saber. Pela primeira vez o partido conseguiu emplacar gente a nível nacional e isso ocorreu logo na Câmara dos Deputados. Oito cadeiras é um número respeitável, ainda que pudesse ser bem maior (falarei disso em outro artigo).

De qualquer forma, é esperado que muitos dos grandes partidos da atualidade se reinventem. O PSDB levou uma verdadeira surra em vários estados. Anastasia, que era o favorito em Minas, ficou atrás de Romeu Zema, do NOVO, e corre risco de perder no segundo turno. Em Goiás o já conhecido Marconi Perillo ficou fora do Senado. Além disso a atuação miserável de Geraldo Alckmin, que foi incapaz de entender a situação do país em sua campanha que tinha tudo para ser vitoriosa.

O MDB também encolheu consideravelmente, mas é provável que o partido se incline para virar base governista. Aqui em Santa Catarina a probabilidade de um acordo entre MDB e Comandante Moisés para o segundo turno é alta, e MDB e PSL elegeram as duas maiores bancadas na ALESC. Em resumo, governabilidade é tudo, resta saber se o PSL entenderá e aceitará isso ou se o partido permanecerá radical. Caso isso aconteça as chances de Bolsonaro governar com liberdade diminuem significativamente.

Contudo esta eleição fez muita gente repensar a política. Os institutos de pesquisa podem definitivamente mudar sua metodologia, porque foi um dos maiores fracassos já vistos. Muitos partidos que tinham amplo espaço e controle da política nacional há décadas saíram machucados. Muitos daqueles que estavam com a eleição ganha acabaram não ganhando. Se essa mudança prevalecerá, só o futuro pode dizer. Por enquanto é preciso ter em mente o que é possível. 

De certa forma pode-se dizer que o povo teve o que queria. Resta saber se vai valer a pena.
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