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Estratégia de Alckmin sobre Bolsonaro demonstra desinteligência tucana

A estratégia central da campanha de Alckmin tem sido apostar na antagonização com Jair Bolsonaro. O tucano tem dito, com elevada frequência, coisas como "não se resolve na bala", além de fazer ataques sutis ao "mito" em inserções e debates criticando o fato (é fato mesmo, aliás) de Bolsonaro ter muito gogó e pouca ação prática.

Recentemente caiu no Twitter um vídeo da campanha tucana, que é até bem feito, mas que visa atacar diretamente Bolsonaro. Hoje, segundo informação do site O Antagonista, a campanha tucana também decidiu mostrar um vídeo de 2002 em que se mostra Jair Bolsonaro apoiando Lula. 


A despeito de serem ataques verdadeiros e informações reais, o que os tucanos talvez não tenham percebido é que esse tempo já passou. Os ataques morais a Bolsonaro fariam bastante sentido se, como já escrevi inúmeras vezes, tivessem sido feitos há anos. O deputado é de fato uma fraude, um comunista enrustido, mas seus opositores - liberais, conservadores ou até mesmo os políticos de centro - permitiram que ele sobrevivesse incólume a tudo isso enquanto crescia nos esgotos da internet, atacando a todos aqueles que não o idolatram.

Bolsonaro poderia ter sido desconstruído há dois ou três anos atrás, teria sido a época ideal para isso. Ele poderia ter perdido potencial de votos naquela época, quando ainda estava crescendo, se seus adversários tivessem exposto algumas verdades sobre ele, verdades que eu mesmo expus aqui neste site, como o fato de ter apoiado Lula e Ciro, ou o fato de ser um fã de Hugo Chávez, ou mesmo o fato de ser um deputado ausente mas que sempre esteve presente quando era necessário votar alguma pauta importante em conjunto com as esquerdas no Congresso.

É verdade, sim, que em diversas votações, passadas ou recentes, Jair Bolsonaro votou lado a lado com as esquerdas na Câmara. Foi assim desde o Plano Real. Foi assim em 2010, quando logo depois das eleições Bolsonaro e quase todos os demais deputados votaram pelo aumento abusivo dos próprios salários. Foi assim quando seu filho, Flávio, votou contra a privatização da CEDAE no Rio, ano passado, exatamente como fizeram todos os deputados do PSOL, do PT e afins. A lista é infinita, poderia até dar um livro (ver mais aqui), mas como disse antes, agora é tarde. Esse tempo já passou.

Geraldo Alckmin é o candidato com maior tempo de TV. Bolsonaro, neste sentido, perde feio para quase todos. O PSL não tem alianças relevantes, não tem estrutura financeira e não tem cabos eleitorais aos montes como os tucanos. Outra questão aqui é que Alckmin, a essa altura, não irá converter votos dos bolsominions. O eleitorado de Jair Bolsonaro se transformou em uma seita fiel ao seu ídolo. Mesmo que Alckmin mostrasse um vídeo em que Bolsonaro mata uma criancinha com uma espingarda, seus eleitores continuariam na mesma. O processo de transformar os seus cérebros em mingau já foi concluído há mais de ano.

Ciro Gomes disse em uma entrevista há alguns anos, respondendo perguntas sobre Bolsonaro, exatamente o seguinte: "Bolsonaro é problema dos tucanos". É verdade. O eleitor de Jair Bolsonaro possui um perfil bem claro que vou explicar aqui.

Em 1989:

1) Se tem idade para ter votado em 1989, quase sempre é alguém que votou em Collor.
2) Por ter votado em Collor, se sentiu lesado e 1998 e principalmente em 2002 certamente votou em Lula.
3) Por ter votado em Lula, se sentiu lesado e ficou vingativo, então acabou por votar no PSDB em 2010 e 2014, inclusive dizendo: "A culpa não é minha, eu votei no Aécio".
4) Novamente se sentindo lesado pela incapacidade tucana de vencer, migrou para o Bolsonaro e agora odeia a todos os petistas e tucanos quase que igualmente, e neste caso está disposto a ignorar solenemente qualquer evidência de que seu ídolo é quase tão petista quanto o Guilherme Boulos.

Em 2002:

1) Se tem idade para ter votado em 2002, é quase sempre alguém que votou em Lula naquela época.
2) Por ter votado em Lula, se sentiu lesado e ficou vingativo, então acabou por votar no PSDB em 2010 e 2014, inclusive dizendo: "A culpa não é minha, eu votei no Aécio".
3) Novamente se sentindo lesado pela incapacidade tucana de vencer, migrou para o Bolsonaro e agora odeia a todos os petistas e tucanos quase que igualmente, e neste caso está disposto a ignorar solenemente qualquer evidência de que seu ídolo é quase tão petista quanto o Guilherme Boulos.

No caso dos mais jovens ocorreu o seguinte:

1) Após as manifestações de 2013 o sujeito começou a saber que política existia. 
2) Votou no Aécio em 2014 no segundo turno, mas talvez tenha votado em Pastor Everaldo ou Fidelix no primeiro, em alguns casos até no Eduardo Jorge.
3) Se sentiu otário quando os escândalos sobre Aécio Neves começaram a aparecer, porque até então ele não sabia nada sobre política, e migrou para Bolsonaro porque acredita cegamente que basta falar grosso para que seja verdade, como uma versão moderna do tiozão do Caps Lock.

Ou seja, uma grande parte daqueles que hoje idolatram Bolsonaro são já os ex-eleitores do PSDB. E no caso dos mais velhos, são ex-eleitores do PT que migraram para o PSDB e depois para Bolsonaro. De qualquer forma, é problema do PSDB.

A questão, entretanto, é que os tucanos não poderão mais recuperar estes votos. O bolsonarismo, como já disse, virou uma seita. É uma religião tão forte como foi o lulismo nos anos 90. Ao atacar Bolsonaro, que tem a anti-fragilidade como característica, na realidade os tucanos estão é dando voz a ele, uma voz que ele não teria por não ter tempo de TV ou dinheiro. O resultado, como também descreveu O Antagonista, pode ser justamente o inverso, que é converter os votos de indecisos ou até mesmo trazer alguns lulistas menos radicais para o lado dele.

Qualquer um que entenda um pouco da política brasileira e de como ela funciona no público menos informado, sabe perfeitamente o quanto pode ser normal uma senhora votar de Lula e ao mesmo tempo adorar os vídeos de Luiz Carlos Prates. Sabe-se também o quão comum é existir quem enalteça os tempos da ditadura militar e, ao mesmo tempo, tenha votado em Heloísa Helena em 2006. Há aqueles que gostam do discurso do Boulos enquanto xingam quem invade terras e imóveis. Há os que votaram em Dilma Rousseff para presidente e em Alckmin para governador.

Em geral o público é disperso, é confuso, e esse tipo de propaganda não surtirá o desejado efeito naqueles a quem se pretende atingir. Os tucanos não deveriam buscar antagonismo com Bolsonaro, eles deveriam fazer isso em relação a Lula e Haddad, e deveriam principalmente buscar conquistar os indecisos e aqueles que pensam em anular voto. Dar voz a Bolsonaro na propaganda eleitoral é estupidez, e é tudo o que Bolsonaro quer que seja feito.

Outra questão levantada pelo excelente Carlos Andreazza recentemente no Twitter é que, aparentemente, todos os candidatos que se opõem ao PT esqueceram que o governo mais recente e mais desastroso que tivemos foi justamente o governo petista. Sob o comando de Dilma, esta nação se despedaçou e mergulhou em crise econômica, política, social e institucional. Há muito tempo não se via tamanha complexidade. Mas o governo Dilma não está sendo trazido para o centro do debate. Por quê?

Alckmin, que pelo menos tem em seu histórico o fato de ter sido oposição ao PT desde sempre, deveria trazer este assunto à tona. Com isso ele bateria em Ciro, bateriam em Boulos, bateria em Haddad/Lula. Foi o governo Dilma que mergulhou o pais na crise e isso precisa ser lembrado com extrema urgência. Este tema precisa ser trazido para a campanha, porque com ele muitas cabeças podem rolar. Dilma saiu do governo com baixa aprovação e com uma popularidade negativa, mas hoje está concorrendo ao Senado em Minas e pode inclusive vencer. Faz sentido deixar isso de fora?

A verdade é que a comunicação tucana, que em teoria deveria ser a melhor de todas - por ter dinheiro, tempo de TV e uma enorme coligação - está trabalhando de forma confusa e sem direcionar a quem realmente interessa. Se continuar deste jeito, a chance de Haddad realmente se dar bem no pleito ao enfrentar Bolsonaro no segundo turno não é descartável.
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