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Análise sobre o debate presidencial e o jogo como ele é jogado

Esta análise se trata especificamente do debate de ontem, na Band, e não é uma análise de toda a conjuntura política nem de seus possíveis resultados.


Na noite de ontem ocorreu o primeiro debate entre os pré-candidatos à presidência da República. Estiveram presentes somente aqueles cujos partidos possuem representação no Congresso. Foram oito participantes no total, e esta análise será feita isolando a atuação de cada um no que diz respeito ao jogo político.

1) Álvaro Dias

O senador Álvaro Dias, do Podemos, não foi muito expressivo. Embora seja um parlamentar com mandato sólido e diversas propostas úteis tramitando no Senado, ele deixou a desejar e atuou abaixo do que muitos esperavam. Sua pouca articulação não convenceu.

Logo no início se mostrou distraído ao discursar longamente sobre si mesmo, deixando de lado a pergunta referente ao atual problema com a falta de empregos no país. Seu tempo esgotou antes mesmo que ele concluísse o raciocínio. Em seguida ele tentou lacrar para cima de Jair Bolsonaro a respeito dos salários das mulheres e da igualdade de gênero, dando a impressão de querer atrair votos femininos.

Em vários momentos Álvaro fez questão de frisar que em seu eventual governo pretende institucionalizar a Lava-Jato, convidando Sérgio Moro para ser seu Ministro da Justiça. A persistência nesse discurso foi uma clara tentativa de forçar sua postura pró-Lava-Jato, mas ficou evidentemente teatral.

Claro que é preciso considerar o óbvio: o senador ainda terá mandato até 2023, portanto sua atual candidatura à presidência não interfere diretamente em sua atuação no Congresso. Outra questão a ser relevada é que o senador também não é o candidato que entra neste jogo para ganhar, ele entra para aparecer e manter seu nome vivo. Para ele, esta campanha significa algo maior e para o futuro, possivelmente até a mera manutenção de seu cargo no Senado.

Devido a isso não dá para julgar esta atuação como algo a ser exemplificado. Ele certamente sabe que não vai vencer o pleito e está apenas fazendo seu jogo.

2) Cabo Daciolo

Não há muito a dizer sobre esta figura vergonhosa. Daciolo é um personagem em tempo integral. Durante o debate agiu quase o tempo todo como um Enéas, mas sem a barba e nem as formações acadêmicas. Ele é uma versão menos aprimorada de Jair Bolsonaro. 

Alguns até podem ver que ele tenta se comunicar com uma parte da população, em especial com os evangélicos. Mas tudo isso é feito de forma pouco eficiente e sem direcionamento claro. Ele é o candidato que veio para dar graça a esta eleição, para fazer rir e principalmente para nos levar a questionar o sentido disso tudo. 

No meio do debate, vale frisar, ele conseguiu ser ridicularizado por Ciro Gomes ao, primeiro, acusá-lo erroneamente de ter fundado o Foro de São Paulo. Depois por ter dito que Ciro faz parte da URSAL, termo inventado por ele para se referir a uma suposta "União Revolucionária Socialista 'Latino-Americana'".

Não é que a tal união revolucionária seja totalmente fictícia, mas quando estas palavras saíram de sua boca para o mundo foi como se tudo isso não passasse de uma teoria conspiratória maluca. É esse tipo de sujeito que a direita brasileira criou em seus porões sujos para nos matar de vergonha. Talvez agrade alguns olavettes.

3) Geraldo Alckmin

O tucano foi quase o de sempre, exceto por ter adotado posturas um pouco mais claras e menos "neutras" em temas relevantes. Alckmin é o verdadeiro candidato do governo, digam o que disserem. É um político hábil capaz de se sair bem em saias justas. Naturalmente ele não tem posturas agressivas ou exageradamente incisivas, já que é um tucano.

Neste debate ele se sobressaiu diante de muitos candidatos fracos e pouco relevantes. Além disso, como é natural nestes casos, havia ali um certo nível de cordialidade que é comum entre aliados. Qualquer um que acredite haver oposição real entre Alckmin e Meirelles, ou mesmo entre Alckmin e Marina Silva ou ainda Álvaro Dias, certamente é alguém que não conhece minimamente a nossa realidade política.

Houve momentos claros no debate em que levantaram a bola para Alckmin chutar, e nestes casos ele marcou. Particularmente considero sua atuação a mais equilibrada do debate, mantendo a coisa toda em um nível mais profissional. 

4) Marina Silva

Marina foi exatamente o de sempre. Água morna de bacia, do tipo que não aquece e nem esfria. 

A candidata da REDE esteve ali, desta vez, apenas para promover seu partido. É necessário que a REDE mantenha cadeiras no Congresso e conquiste outras novas. Ela praticamente largou a vida pública em 2011 e desde então nunca mais esteve em nenhum cargo político. Nas últimas duas eleições ficou em terceiro lugar, mas é provável que nesta acabe ficando mais para baixo. Seu desempenho clássico não é uma busca por vitória. 

Houve um momento especifico, após certa insistência por parte dela, em que Alckmin lembrou do fato de ela ter sido ministra de Lula. De fato não há muito mais a ser dito.

5) Jair Bolsonaro

O deputado foi o que se esperava: fraco e desequilibrado. Apesar de ter uma equipe razoável que tenta ajudá-lo, já está claro que ele não é do tipo que ouve conselhos. 

Logo no início foi enquadrado por Guilherme Boulos - algo que já era esperado - a respeito de sua suposta funcionária fantasma em Angra dos Reis (não entrarei no mérito da questão). Sua resposta foi até aceitável do ponto de vista em que a verdade imposta, mas não chegou a ser eficiente. Depois disso, em sua tréplica, ele simplesmente fugiu da questão e não quis mais responder. Saiu pela tangente em um debate em rede nacional, mais um motivo de vergonha para o seu currículo.

Na maior parte do tempo sua atuação seguiu o mesmo padrão de suas entrevistas passadas e recentes. Falar alto sem dizer muito, dizer coisas muitas vezes sem relação com o tema e ouvir respostas avassaladoras.

Quando foi atacado por Ciro Gomes a respeito da farsa da pílula do câncer (sim, uma farsa), quis ter direito de resposta, embora não fosse cabível pelas regras do jogo. Nisso ficou gritando em vão com o microfone desligado. Mais um vexame.

6) Guilherme Boulos

O candidato do PSOL é, pelo menos em hipótese, um futuro Lula. Todos que acompanham mais de perto a política sabem da proximidade entre eles. A diferença, no caso, é que Boulos ainda está em estágio embrionário.

Assim como eu, você e até o seu cachorro, Boulos também sabe que não irá ganhar a eleição e nem é para isso que ele está nessa. Seu papel no debate foi desestabilizar Bolsonaro, fingir que é oposição a todos os outros e começar a fazer seu nome. 

Claro que também há de se criticar suas tentativas de lacração. O esforço para agradar sua militância é o que o afasta do povão. Mas como um balão de ensaio, dadas as atuais circunstâncias, ele fez o que precisava ser feito (do ponto de vista dele, é claro). É possível que no futuro ele venha a ser o herdeiro de toda a extrema-esquerda que sobreviver ao tempo.

7) Henrique Meirelles

O ex-ministro da Fazenda também cumpriu seu papel. Foi ao debate para defender as medidas econômicas de seu governo, para ajudar Geraldo Alckmin e especialmente para demonstrar que ter habilidade e conhecimento em economia não necessariamente servem para debater política.

Na maior parte de suas afirmações ele esteve claramente certo. Porém, sua oratória e até mesmo a escolha das palavras não é algo que atinja a população. É um discurso para cativar empresários ricos e banqueiros. Faz jus às suas origens, obviamente.

Algo que importa saber, neste caso, é que Meirelles não está no páreo. Ele é o candidato de um governo que foi absolutamente devastado por escândalos políticos. O próprio Temer não o colocou para concorrer esperando uma vitória, trata-se de um jogo no qual Alckmin pode correr sem o peso da baixa popularidade do governo e que, de quebra, garante ao MDB uma fatia no próximo mandato.

8) Ciro Gomes

O coronel Ciro Gomes, de modo geral, se saiu bem. Na realidade ele costuma se dar bem em debates e entrevistas, principalmente por sua eloquência. Não que ele seja um candidato vitorioso, longe disso. É mais uma questão de postura. 

Com sua oratória Ciro consegue transparecer confiança no que diz e isso fortalece seu discurso. Mesmo assim, não houve momento de destaque senão aquele em que o ex-deputado debochou do patético Cabo Daciolo. 

A despeito disso, o papel de Ciro foi cumprido com facilidade. Ele conseguiu antagonizar com Alckmin em alguns momentos e foi capaz de sair sem nenhum desgaste. Tudo dentro do esperado.

Considerações gerais

O debate foi abaixo das expectativas, mas na realidade esteve dentro daquilo que normalmente ocorre no começo da campanha. Sem nenhuma surpresa, Alckmin foi o que se manteve mais equilibrado e foi quem teve maior visibilidade, uma vez que foi o candidato mais perguntado e também o mais atacado.

Outros candidatos não participaram, como João Amoedo, do NOVO, ou Vera Lúcia, do PSTU. Estes não possuem representação no Congresso e nem em lugar nenhum. O mesmo vale para Eymael e todos os que não estiveram presentes. 

Também é preciso levar em conta que, dado o horário do debate, que terminou uma hora da manhã, boa parte da população só viu de fato os primeiros dois blocos. Nas redes sociais, é claro, ocorreu o inverso, mas as redes sociais não determinam resultado de eleição, do contrário Luciana Genro teria ido para o segundo turno em 2014. A televisão no Brasil ainda possui um poder imenso, muito maior do que blogueiros em geral gostam de admitir. Quase metade dos brasileiros não tem acesso a nenhuma rede social mesmo nos dias de hoje.

Em minha humilde opinião, Alckmin tem vaga garantida no segundo turno, mas isso se sua campanha for inteligente o bastante para fazer uma boa leitura do cenário. Ele não deve atacar frontalmente Bolsonaro, se o fizer vai fortalecer o adversário e enfraquecer a si próprio. Seu foco deve ser contra Ciro Gomes, contra Haddad (que provavelmente será o candidato petista) e contra Marina Silva.

Por que atacar o PT? Porque é o PT quem tem, agora, a segunda vaga garantida no segundo turno. Aconteça o que acontecer, o PT possui uma base sólida de eleitores que pode ser mais que suficiente para garantir esta vaga. Bolsonaro, por outro lado, também tem amplo apoio. O problema é que o eleitor do Bolsonaro não irá migrar para o Alckmin sob quase nenhuma hipótese que não seja a do voto útil, e atacar o deputado pode dificultar essa opção justamente pelo fato de Bolsonaro ser anti-frágil.

Bolsonaro tem um teto. Algo próximo dos 20%. Mas isso pode mudar drasticamente conforme a campanha avançar, para mais ou para menos. Se os tucanos mantiverem uma posição fraca, o ódio pelo PT irá fortalecer Bolsonaro e não Alckmin. Aí ele pode aumentar este teto de forma significativa até o dia da eleição em si. 

O tucano, se quiser entrar no jogo, precisa demolir a campanha de Ciro Gomes, que é um concorrente forte, e deve procurar tirar votos da Marina mostrando que ela tem uma posição frágil. Quanto ao PT, o confronto precisa ser direto. Alckmin deve lembrar aos eleitores que sempre foi oposição aos petistas, porque isso hoje é o que pode fortalecê-lo perante aqueles que nutrem um sentimento anti-petista - e são muitos.

Veremos.











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