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Política é bem mais que redes sociais. Saber disso é o que diferencia os velhos dos "novos" políticos

Fala-se muito em "nova política", e o discurso vai de Marina Silva até os filões liberais e conservadores. No entanto, o que vejo em comum tanto de um lado quanto de outro, com exceção dos psicopatas poderosos que realmente sabem o que estão fazendo, é que quase ninguém sabe explicar como seria a tal "nova política". Isso tem um motivo claro.

Para que algo seja superado, precisa antes ser compreendido. Não há como um desenvolvedor de tecnologia inventar alguma melhoria ou inovação se ele não entender o que já existe no momento. A Apple, para criar um novo iPhone, precisa antes ter todo o conhecimento sobre como funciona o iPhone da versão anterior. Por isso estas empresas contratam especialistas, que são pessoas com conhecimento técnico, muitas vezes prático e teórico, e estas pessoas são capazes de inovar porque entendem todo o processo.

Na política não é tão diferente. Apesar de ser uma ciência social, ela ainda é uma ciência. Por ser social, ela tem processos complexos envolvidos, muitas variáveis, e nada é sempre 100%. O que ocorre, entretanto, é que há necessidade de compreender os processos que a envolvem antes de pensar em mudar alguma coisa. Neste caso apelo à filosofia: é preciso entender o mundo antes de querer mudá-lo. Essa mentalidade de querer mudar tudo sem saber de nada é típica de revolucionários mimados, e isso assola muito mais liberais e conservadores hoje do que esquerdistas.

Agora, vamos aos trabalhos. Como a política realmente acontece em um país pobre como  o Brasil?

Em um nível de superfície, respeitando processos, leis, aparências e certas regras mais ou menos legítimas amplamente aceitas socialmente, o que se vê são as propagandas de TV e rádio, a panfletagem, as palestras, a divulgação em redes sociais, etc. Neste nível as coisas ocorrem de forma óbvia. Pessoas são contratadas para fazer marketing, militância e outras funções dentro de uma campanha eleitoral.

Porém, a política vai muito além dessa pequena etapa de poucos meses relativa ao período eleitoral. Na realidade os políticos e partidos em geral estão quase constantemente em campanha, especialmente os partidos grandes e que possuem mais recursos. Além disso, o que o brasileiro médio vê em uma campanha não é nem mesmo a metade do que ela realmente é. Aquilo que está claramente acessível aos olhos é a parte que a lei permite, a parte legítima do processo que é feita apenas para expandir a influência política dos grupos envolvidos.

Compra de votos

É bem comum acreditar que a compra direta de votos não acontece mais, ou que ela acontece de forma mais limitada. Mas não é verdade. Pode até ser que nos dias de hoje os políticos evitem fazer isso, mas não por questões morais ou éticas, sim pelo fato de que estamos vivendo uma era na qual quase todo cidadão do mundo civilizado tem um celular com câmera nas mãos. De toda foma, já existe há muito tempo meios de burlar estas leis. O método é simples, aliás. Simples e óbvio. 

Quando estive na Esquerda Marxista, da qual saí há dez anos, vi muita coisa acontecer. Embora eu não tivesse qualquer nível de acesso lá dentro, ainda assim tive certas informações que, na época, nem mesmo era capaz de compreender inteiramente. Uma coisa que vi acontecer quando estive lá é algo chamado mapeamento político. 

O que é mapeamento político?

O partido ou a organização têm, em suas mãos, um mapa completo da cidade, do estado, do bairro ou do país. Para fins práticos usarei o exemplo que vi: um mapa da cidade de Joinville com distinção entre as regiões nas quais o partido possuía maior ou menor influência. Ao lado, uma lista de contatos, com nome, número e localidade. Em cada bairro o partido tinha seus representantes, e normalmente nem eram candidatos, eram "líderes comunitários", figuras conhecidas em suas ruas e bairros que tinham, por alguma razão, o respeito da comunidade local.

Estas pessoas podiam ser membros de associação de moradores, líderes de grêmio estudantil, chefes de APP, síndicos de prédio, padres de alguma paróquia, etc. Simplesmente eram pessoas nas quais a comunidade confiava, seja por terem boa lábia ou até mesmo por terem feito coisas boas ali.

Esses representantes faziam um importante trabalho nos bairros, escolas, paróquias e onde mais pudessem fazer, e não era simplesmente fazer campanha para o partido ou um candidato em específico. Eles serviam, basicamente, tanto para construir uma ponte indireta entre o partido e o povo como também para informar os membros do partido de tudo o que ocorria lá. Com o mapeamento, o partido sabia exatamente onde e com quem falar para melhorar a situação. Eles focavam suas energias nos bairros nos quais não tinham muito apoio e, de quebra, davam para estes "representantes" locais uma ajuda quando quisessem concorrer com uma chapa para a Associação de Moradores, para o grêmio da escola, etc.

Isso tudo, entretanto, é a parte limpa do jogo. Em muitos casos - e aqui afirmo que não cheguei a ver isso ocorrer, mas sei que ocorre - a compra de votos se dá através disso. Não é que o partido ou o candidato deem dinheiro propriamente dito para que as pessoas votem, a atuação neste sentido é bem mais sutil. Se o partido estiver no poder, por exemplo, ele consegue mandar passar asfalto em alguma rua, limpar alguma valeta a céu aberto ou arranjar verba para construir uma quadra esportiva. 

O partido faz isso segundo o interesse apresentado pelo seu representante local. Com isso, mata dois coelhos de uma só vez. Ele resolve o problema daquela comunidade, atendendo a uma demanda local, ao mesmo tempo em que aumenta a confiança do povo naquele representante.

Imagine que você seja presidente de uma associação de moradores, que você tenha contato direto com algum vereador e que tenha alguma ambição política. O que vai fazer, se for inteligente, é buscar com este vereador atender o máximo possível das demandas daquele povo que você representa. Assim as pessoas acreditam que você luta por elas e tendem a fazer o que pedir que façam. É aí que entra a compra indireta de votos. 

Se eu, na condição de presidente do grêmio estudantil, consigo liberar uma verba do município para a construção de uma quadra na escola, poderei usar isso em forma de barganha. Quando alguém perguntar como consegui, direi que tive ajuda do vereador Y, do candidato X, e pedirei para que meus seguidores e eleitores também votem neles. Não há, é claro, garantia de que todos vão votar, mas a maioria vota se realmente acredita no que o representante delas está dizendo.

É claro que estes representantes locais, em muitos casos, fazem isso também com boas intenções. Eles são meras ferramentas do sistema. Em outros casos eles fazem porque sabem que aquilo pode lhes render frutos no futuro. Mas, seja como for, a verdade é que uma parte relevante dos votos de diversos candidatos a cargos eletivos é conquistada assim. 

Um exemplo que posso citar é o do ex-deputado estadual Nilson Gonçalves, do PSDB. Ele manteve, por anos, a Casa Amarela, uma espécie de "ONG" cuja finalidade era ajudar pessoas necessitadas. Não estou aqui dizendo que ele a manteve apenas por interesse político, eu não poderia afirmar com muita certeza, mas é fato que ele a manteve por todos os anos enquanto foi deputado estadual e que ele a fechou tão logo perdeu a eleição em 2014. Aquilo foi seu curral eleitoral por muito tempo, além do fato de ter um programa na televisão, é claro.

Influência

Pode parecer, inicialmente, que esse tipo de coisa só funciona a nível local ou em eleições municipais. Ledo engano. A níveis estadual e nacional também acontece desta forma, mas de um jeito ainda mais pulverizado, numa espécie de efeito em cascata.

O presidente da República tem seus assessores, que por sua vez têm contato com deputados e senadores. Estes, no caso, possuem linha de contado com governadores e prefeitos, que aí tem suas linhas com os vereadores, finalmente chegando aos representantes locais. Tal modelo, entretanto, não é novo e nem é exclusivo de qualquer partido. A maioria dos grandes partidos opera desta forma ou de forma pelo menos similar, e é claro que o PT, ao longo dos anos, aprimorou essa estratégia e levou ela a outros níveis.

Por isso é emburrecedor pensar que um partido como o PT se estabeleceu com tanta firmeza no poder apenas por causa da corrupção ou por conta do Bolsa Família. Isso é de um reducionismo preguiçoso, típico de gente que usa a vadiagem na hora de pensar. Estamos cheios de "analistas" políticos por aí, especialmente na direita brasileira, que simplesmente nunca tiveram qualquer experiência política, e isso é deveras problemático.

Uma coisa que pouca gente se pergunta até hoje, aliás, é sobre a finalidade do caixa 2. O afegão médio pensa que é só mais um desvio de dinheiro qualquer, mas quem pensa assim está longe da verdade. O caixa 2 nem é necessariamente um desvio. Na maioria das vezes não é. Caixa 2 é simplesmente dinheiro, muitas vezes de fontes legítimas, usado para fins que são ilegítimos.

Explico...

Para que fins um partido precisaria de dinheiro que não esteja registrado no TSE? O que, afinal, levaria um partido a receber um dinheiro que poderia ganhar legalmente de forma irregular? Aí é que está o pulo do gato. Grosso modo, pode-se dizer que o caixa 2 é um dinheiro usado para comprar votos e influenciar campanhas. Na prática, embora seja este o resultado almejado, há um processo que envolve tudo o que escrevi até aqui.

É por isso que operações como a Lava Jato são, na melhor das hipóteses, ineficazes no combate aos crimes políticos. Se fosse para levar a coisa a sério, a operação deveria investigar não apenas a origem do dinheiro, mas também sua finalidade. Claro que os promotores e policiais sabem disso, e há uma razão para que não façam: inviabilidade.

Imagine ter que descobrir para onde foram os milhões de reais que o partido ganhou em caixa 2... Este dinheiro foi gasto de forma dispersa. Uma parte dele serviu para pagar algum marqueteiro não registrado, outra parte foi para o bolso de um vereador que redistribuiu para seu gabinete, que por sua vez levou o dinheiro até alguma ONG na favela, e lá este dinheiro serviu para comprar material para uma quadra de futebol ou qualquer coisa que se possa imaginar. Se fosse para rastrear e prender todos os envolvidos no processo, a Lava-Jato teria que prender desde o tesoureiro do partido até um pobretão da favela da Rocinha que ajudou o partido a comprar votos daquele povo, e no caminho teria que prender outras cem ou duzentas pessoas direta ou indiretamente envolvidas.

Conclusão

É por coisas assim que sinto grande tristeza ao ver boa parte da direita focada no "combate à corrupção". Isso é pura besteira. O sistema é deste jeito, ele é desvirtuado, é podre, e não adianta nada prender trezentos deputados se a estrutura em si não for alterada. Aí, voltamos ao início de tudo. Não dá para propor uma nova política se você não entende nem a política atual.

A meu ver, analistas políticos como Flávio Morgenstern e o pessoal do Senso Incomum, que admiro muito, pecam vergonhosamente neste aspecto. Eles não têm a menor noção do que quer que seja a política atual. Passam muito longe da realidade bruta porque, no fundo, todo o conhecimento que possuem é baseado em academicismos ainda que indiretamente. Nem mesmo Luciano Ayan, que é meu amigo, parece ter esse nível de compreensão. E que nível é este? O nível mais baixo de todos, aquele que atinge a política que acontece lá na favela, nas periferias, nas cidades de interior.

Entender a política no nível alfa - e neste caso Luciano Ayan é até melhor do que eu - exige bem menos esforço. A política institucional envolve coisas a que todos têm acesso. É fácil estudá-la, classificá-la, entendê-la e analisá-la. O problema geral de quase todos os analistas da direita é que eles não se importam em entender como funciona a outra ponta. É por isso que muitos deles apostaram, temporária ou permanentemente, em uma vitória fácil de Jair Bolsonaro ou até mesmo do Flávio Bolsonaro no Rio. Eles apostaram suas fichas no óbvio, ou seja, perceberam que o discurso deles têm "apelo popular".

A questão, no entanto, é que esse apelo é unilateral e atinge apenas uma pequena parcela da população. O sujeito da periferia que não tem o que comer não está preocupado com porte de arma, redução da maioridade ou ideologia de gênero. O idoso que mora em uma cidade cujo hospital mais próximo está a 800 km não liga para o discurso moralista de um deputado federal qualquer. A mãe que tem seis filhos no interior do nordeste e não tem água encanada quer saber é de dar remédio de vermes para sua prole, não em ter o direito a portar um revólver. Sobre isso, a propósito, recomento um artigo recente da Revista Amálgama que complementa muito do que penso sobre o assunto.

É neste nível que os grandes partidos realmente operam. Eles estão lá e fingem se importar. Seus representantes agem para atender aos interesses destas pessoas, mas também agem em outros locais para atender as demandas daqueles que gostam do Bolsonaro. O que é, afinal, que a direita já fez pela população? Discussão em redes sociais e postagens sobre ideologia de gênero não fazem nascer asfalto na rua e nem tubulação de esgoto. Quem faz isso é aquele sujeito pouco conhecido que foi eleito em alguma assembleia local para representar uma comunidade pobre.

Até mesmo as questões nas quais a direita mantém foco, como o porte de arma, são questões totalmente marginais e nas quais ela não possui qualquer tipo de trabalho digno de resultados. O que Bolsonaro, olavettes e demais simpatizantes da causa fizeram contra o desarmamento? Nada. No fim das contas o PL 3722 é de autoria de um deputado catarinense chamado Rogério Peninha, do PMDB, e que 99% dos brasileiros nem sabem quem é.

Quando Flávio Morgenstern foi até o Pânico na Rádio e disse que Le Pen já tinha vencido na França e que o Russomanno já havia ganhado em São Paulo, isso antes das eleições, ele deixou evidente o seu desconhecimento de causa. Fez uma afirmação com base em um conhecimento superficial dos fatos. Por isso eu, como analista, evito dar vereditos como este em situações sobre as quais não possua muita informação. Falar das eleições americanas de 2016, para mim, era fora de questão. Eu estava focado em minha cidade e outras cidades mais relevantes para mim, e nelas acertei minhas previsões. Seria muita pretensão querer saber de tudo sobre todo o mundo, e a verdade é que eu não sabia muita coisa sobre o cenário americano.

Naturalmente tenho muito mais a escrever sobre isso, e pretendo fazê-lo no futuro. Por hora, dá para entender a ideia.



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