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Uma não tão breve história sobre aqueles que se dizem Livres...

Agora que estourou a bolha do Livres com essa negociação entre Bolsonaro e Luciano Bivar, é hora de contar uma história sobre os bastidores de tudo. Farei em ordem cronológica para que fique fácil de entender.

2015 -  A pré-história

Foi em 2015 que ouvi falar do Livres pela primeira vez. Na ocasião, tinha muito contato com o pessoal do MBL em minha cidade, Joinville. Conversava frequentemente com Wilian Tonezi, que é coordenador do movimento aqui. Certa vez ele mencionou o projeto. E o que era, afinal?

O Livres era um projeto do MBL cuja finalidade seria, aos poucos, transformar o movimento em um partido. A ideia inicial era até mesmo fundar um partido com este nome. Houve, já naquela época, negociações entre o movimento e o presidente o PSL, Luciano Bivar. Um dos motivos pelos quais o MBL não levou a ideia até o fim foi, justamente, o fato de que Bivar não é figura confiável.

Membros do MBL, especialmente das lideranças, entendiam que Luciano Bivar era um risco. Sua reputação não é nada boa e o que ele oferecia não garantia coisa alguma. O que ocorreu, então, é que o MBL acabou largando as negociações com o PSL já naquele ano. 

Para quem não sabe, a ideia do próprio nome Livres foi dada por Alexandre Santos, irmão de Renan Santos, que são juntos as duas principais lideranças do Movimento Brasil Livre. Como a ideia não deu certo naquele momento eles acabaram descartando-a, ao menos temporariamente, até que surgisse oportunidade melhor.

Depois disso, eis que Fábio Ostermann, até então membro do movimento, ficou eivado de vaidade e complexo de superioridade e resolveu agir por conta própria. Discordando do fim das negociações com o PSL, ele tomou a dianteira e negociou por conta própria. Tal ação gerou atritos e no meio disso tudo ele acabou saindo do MBL para nunca mais voltar. No entanto, ele "pegou emprestada" a ideia de Alexandre Santos e, junto com left-libs e outros dissidentes do MBL, fundou o Livres.

2016 - O início

Logo no começo de 2016 o Livres veio a público pela primeira vez. O movimento era novo, propunha ser uma alternativa liberal legítima em um mar de opções não tão legítimas assim. A ideia, inicialmente, era unir liberais em torno de um projeto sólido para consolidação das ideias liberais no campo político. O que o Livres faria, então, foi aquilo que o MBL não quis fazer: negociar com Luciano Bivar para que o movimento entrasse no partido. Tudo isso ocorreu rápido, e logo que o Livres surgiu ao público ele já veio com a marca do PSL associada.

Naquele momento, vi uma oportunidade. Não nutria mais as boas relações com o MBL daqui, pensei em ajudar o pessoal do Livres a consolidar alguma coisa em minha cidade. Para mim, que sempre fui pragmático, não havia problema em existirem dois núcleos liberais na cidade porque isso só traria mais forças como um todo. 

De cara me dispus a ajudá-los. Entrei em contato com a direção nacional do Livres* solicitando informações e me propondo a liderar o movimento em Joinville. Eu, no entanto, não sou um líder e nem sou vaidoso. Meu objetivo desde o princípio era só organizar a coisa toda no início, dar o pontapé inicial, e depois sair dos holofotes para deixar alguém mais competente em meu lugar. Foi o que comecei a fazer.

Em março de 2016 fui até Florianópolis em uma espécie de "convenção". Estavam presentes Fábio Ostermann, Leandro Narloch e Alexandre Paiva, a quem eu já conhecia pessoalmente desde 2014, quando ele ainda tentava implementar o NOVO aqui em Santa Catarina. No entanto, nunca fomos amigos, no máximo parceiros temporários para fins políticos específicos.

No evento em Florianópolis, ao qual fui embaixo de uma chuva torrencial junto com outros dois amigos, senti que havia desperdiçado tempo e dinheiro. Como qualquer evento liberal que eu já tenha frequentado até hoje, a convenção era mais do mesmo. Jargões liberais, repetição de ideias que todos já conhecem - coisas como "temos que ter um livre mercado para os mais pobres" - e nada de traçar um plano. Não havia, simplesmente, qualquer cunho político ou mesmo tático naquele encontro. Fui de Joinville até a capital apenas para ouvir coisas que já li em livros, livros que foram escritos décadas antes de eu nascer.

Naquele dia conversei com Ostermann e Paiva. O Paiva, na ocasião, ainda estava em fase de encerramento com o MBL - ele era, até então, coordenador estadual do movimento em SC. Perguntei a eles sobre a tomada do PSL, sobre como ela ocorreria. Eles me disseram apenas que haviam negociado com Bivar, que tudo estava certo, que ele lhes daria carta branca e que o próprio filho dele estava envolvido com o Livres. De pronto eu disse que suspeitava de Bivar, disse que achava muito arriscado confiar em alguém que dois anos antes apoiava Marina Silva em campanha presidencial.

Como resposta, dizendo o óbvio e mostrando que liberal não entende de política, Fábio Ostermann afirmou que isso não seria problema. Ele alegou que Bivar já havia acertado tudo com eles. Ou seja, garantiu que tudo daria certo e fez isso baseando-se na palavra de um político com décadas de carreira. É ou não é o pior liberal do mundo?

Meu foco, entretanto, era mais municipal. Pensei: "Dane-se o que a direção nacional fizer por enquanto, vou focar meu trabalho na cidade de Joinville." Pensei isso até porque era 2016, ano eleitoral. Fazia todo o sentido. Naquele momento eu já havia liderado algumas iniciativas na cidade, conhecia pessoas que poderiam se engajar no projeto e se interessar na proposta. 

No sábado seguinte a esta viagem para Floripa, organizei um pequeno evento no qual convidei pessoas que poderiam se interessar, todas liberais ou simpatizantes. Muita gente foi, conversamos sobre o que eu tinha visto e sobre qual era minha percepção de tudo. Propus um plano estratégico simples, que consistia basicamente em focarmos na eleição municipal daquele ano, buscando apoios locais e tratando de se comunicar com o público joinvilense. Um amigo muito próximo que participou da reunião, e em cuja casa nós estávamos, entendeu minha ideia e se prontificou a me ajudar. Ele, com mais idade e mais experiência e conhecimento teórico do que eu, foi um mentor ao qual tenho muito a agradecer, mas também a quem devo desculpas por tê-lo envolvido no meio desse monte de manés.

2016 - O meio do caminho

Os meses passaram e não tínhamos nada. Nenhuma organização de fato. Inicialmente até pensei que o problema fosse eu e minha não liderança, já que esta não é realmente a minha especialidade. Contudo, tempos depois, quando passei a bola para que outras pessoas gerenciassem a coisa toda, percebi que não era comigo o problema, mas com os liberais em si.

Liberais não entendem de política, não querem entender e têm raiva de quem entende. Nas reuniões era sempre a mesma coisa: havia um cronograma a seguir, mas ele nunca era seguido, e no final acabava-se tudo em debates sobre PNA, sobre quem é o verdadeiro liberal e quem não é. O mesmo tipo de baboseira que você pode ver em grupos no Facebook. Era como se aqueles liberais tivessem transferido sua atuação online para o mundo físico, um mundo no qual 99% das pessoas não sabe o que é PNA e nem se importa em saber.

A eleição estava se aproximando, tudo o que planejei e que dependia dos outros membros do grupo não foi realizado. Não tínhamos sequer um candidato para concorrer a qualquer cargo que fosse. Foi então que surgiu uma oportunidade - a única - de colocar uma pessoa no pleito. Uma antiga amiga, com quem estava brigado há mais de ano, acabou demonstrando interesse na proposta. Ela começou a participar das reuniões e, logo em seguida, lideranças locais do PSL a contataram para fechar a cota feminina do partido. Parecia bom, mas ainda que não fosse simplesmente não havia qualquer outra alternativa possível. Nenhum entre os demais membros do grupo tinha qualquer capacidade ou mesmo vontade de atuar politicamente, e como ela tinha eu pensei: "Por que não?"

Foi um dos meus erros mais graves. Cedi espaço para uma garota jovem, leiga, totalmente ignorante sobre política ou sobre qualquer tema relacionado e, acima de tudo, extremamente arrogante como a maioria dos liberais. Eu não me importava com nada disso de modo pessoal, para mim pouco importava o fato de ela ser estúpida e boçal, o que me importava era ter um candidato nosso no pleito. Minha única preocupação era, até então, com a capacidade que esta pessoa teria para efetuar qualquer ação no campo prático. Uma pessoa que vive num mundo irreal de Facebook e tinha absolutamente zero em conhecimento ou experiência política era um problema.

Mesmo assim, me mantive ali. Ajudei ela em sua campanha para vereadora. Fiz para ela uma página no Facebook, na qual fiz diversas publicações. Até hoje, aliás, a publicação mais curtida da página é de minha autoria. Criei também a página do Livres Joinville, fui atrás de layouts e tudo mais. Para se ter uma ideia, passei um imenso trabalho para conseguir as fontes e o material com o Livres Nacional, e isso tudo tinha um motivo bem simples que descobri logo em seguida, mas que explicarei a seguir**.

A realidade era bem simples até então: nós sabíamos que não havia chance de vitória. A candidata era desconhecida, não tínhamos dinheiro, não tínhamos sequer uma equipe para ajudar. Todos os outros membros do grupo, com exceção do amigo que havia me cedido a casa para a reunião, eram completamente desinteressadas e ineptas, isso quando não eram até mesmo um problema maior. O objetivo, portanto, nunca foi elegê-la, tratava-se apenas de lançar um nome, fazer uma aparição, ganhar o mínimo de notoriedade que se precisa em uma atuação política.

Nossa candidata, entretanto, não ajudava. Vivia arranjando tretas com outros liberais por conta de discussões sobre quem é o mais liberal ou o único liberal de verdade. Ela perdia precioso tempo com isso enquanto, do outro lado, lideranças de extrema-esquerda se organizavam pragmaticamente com uma complexa rede de candidatos. 

2016 - O Fim

A eleição chegou e nossa candidata foi a mais votada dentro do PSL. Isso, apesar de tudo, era pouco. O PSL em Joinville é um partido minúsculo, quase inexistente, sem qualquer candidato expressivo. Mesmo assim, houve certa comemoração já que fizemos tudo isso contra o tempo e sem nenhum recurso. Do outro lado, como havia previsto anteriormente, o PSOL não elegeu ninguém. Naquele ano a esquerda perdeu muito espaço nas eleições municipais e foi a primeira vez desde que nasci que o PT não conseguiu nenhuma cadeira na Câmara. Até aquele ano eles costumavam emplacar entre 3 e 4 vereadores por legislatura.

Como sempre acompanhei e fiz, ainda que informalmente, uma boa análise de dados, previ o resultado das eleições com certa precisão. Sabia quem iria ganhar para prefeito desde antes do primeiro turno, sabia que partidos teriam mais cadeiras na Câmara e sabia quais não teriam nenhuma com certeza. Em uma eleição que ocorreu logo após o impeachment de Dilma e em meio a uma crise econômica violenta, estava claro para qualquer um que apoiar a esquerda era uma má ideia. Jandira Feghali, que recebeu apoio de Lula e Dilma em palanque eleitoral, ficou apenas com a sétima colocação no Rio.

Mesmo diante destes fatos, nossa candidata e mais alguns membros do grupo concordavam com a estúpida ideia da direção nacional do Livres, a ideia de dialogar com a esquerda, tentando abrir uma rede de contato com o inimigo que estava, naquele momento, mais frágil do que está agora. Nossa candidata declarava isso publicamente e arranjava treta com todo liberal ou conservador que discordasse de tal proposta. 

Pouco tempo antes das eleições, ainda em setembro, a página do Livres cometeu uma de suas maiores cagadas até hoje: um post defendendo os black blocs que tocaram terror em São Paulo após o impeachment. Depois disso, começaram a fazer postagens declarando apoio a pautas feministas. Ali eu já vi que a coisa toda ia degringolar. Liberais que nada sabem de política no comando do partido era algo que me preocupava, e esta preocupação foi expressada em todas as reuniões que tivemos. 

De nada adiantou. Como disse antes, liberais que não entendem a política do mundo real também têm raiva de quem entende. A essa altura, por eu expressar minha divergência neste aspecto, ainda que tenha trabalhado para o partido por um ano, muitos membros do Livres estavam contra mim, dentre eles o próprio Fábio Ostermann, com quem nem conversava mais.

Alexandre Paiva, pouco tempo após a eleição, começou a botar pessoas do Livres de Joinville contra mim. Ele se sentia ameaçado com o fato de estar errado e eu estar certo, como se eu tivesse algum interesse em tomar seu lugar, o que é pura e simples besteira. Nunca tive qualquer interesse sequer em liderar o Livres em minha cidade natal, meu objetivo era ficar trabalhando nos bastidores. O problema é que liberal tem um ego maior do que o cérebro, e a vaidade nestes casos costuma falar mais alto do que a inteligência.

2017 - O fim do processo

No começo de 2017 houve uma reunião, a última da qual participei. Ali eu já tinha desistido quase que completamente do partido, visto que não enxergava qualquer possibilidade de que a ideia fosse dar certo. Para mim, então, era claro que o fim do Livres seria só questão de tempo. O movimento persistia nos mesmos equívocos por mera teimosia, e ainda passou a investir mais neles. 

Nesta última reunião, o grupo passou muito mais tempo falando mal do MBL do que de fato trabalhando no que importava: consolidar o Livres dentro do PSL. Já havia se passado mais de ano e o grupo não tinha nenhum plano B, nem mesmo pode-se dizer que havia algum plano. Tudo era baseado na mera confiança na palavra de um político cujo histórico não é dos melhores.

Então eu já nem cuidava de mais nada, tinha passado o bastão para a candidata do nosso grupo aproveitando o fato de que ela tinha uma compulsão por mandar, ainda que não tivesse o respeito de ninguém que se prezasse por ali. Paiva aproveitou o momento para atuar mais fortemente contra mim, e como a nossa candidata era extremamente burra não conseguiu perceber que estava sendo usada para o interesse de um caudilho fracassado de Florianópolis. 

Simplesmente não me importei. Larguei mão de tudo e desde março do ano passado estou oficialmente fora do movimento. Deixei as páginas de Facebook com eles e de lá para cá elas decaíram drasticamente tanto em ritmo quanto em qualidade. Mais tempo passou e, agora liderado por outras pessoas, o Livres continuou sendo o mesmo fracasso. Tudo o que realizaram de efetivo em um ano depois que saí consistiu em um "Burger Liberal" e algumas postagens virtuais sobre o Uber. Nada mais. O movimento simplesmente passou dois anos ininterruptos sem qualquer conquista valiosa.

No final do ano passado, em dezembro, quando veio a tona o encontro de Jair Bolsonaro com Luciano Bivar, a primeira reação da direção nacional foi mentir. Sérgio Bivar apostou na burrice liberal e disse que estava tudo sob controle, que Bolsonaro jamais iria para o partido, o que foi desmentido pelo próprio Bivar poucos dias depois. 

No meio desse rolo todo, nossa antiga candidata abandonou o barco usando como desculpa o trabalho. Ela passou o comando para outro, um amigo meu, que é de fato uma pessoa bem mais competente para o trabalho. Porém, ela fez isso por duas razões muito simples:

1) Imaturidade. Ela ficou decepcionada porque malhava o pau no deputado Bolsonaro frequentemente, tinha até certo empenho nisso. A entrada dele no partido seria humilhante, mas isso é algo que ela jamais admitiria publicamente.

2) Incômodo. Ela sabe, querendo ou não, que não tem capacidade alguma para lidar com uma situação tão adversa. Restou passar o bastão para que alguém fique com o pepino.

No fim das contas, aconteceu quase exatamente o que previ. O Livres foi traído por Bivar, tanto o pai quanto o filho, e foi também ludibriado pela velha política de um sujeito que tem 30 anos de experiência nas costas, que no caso é Bolsonaro.

É óbvio que o movimento teve tempo suficiente para conquistar espaço e, se tivesse trabalhado nisso em vez de se preocupar com postagem ideológica no Facebook, teria sido possível lutar contra tal negociação. O MBL, em dois anos de atuação, conseguiu eleger um vereador com 48 mil votos em São Paulo. O problema é que o Livres estava mais preocupado em criticar o MBL do que em aprender com ele, e aí deu no que deu.

Agora o Livres simplesmente morreu. Eles podem não admitir, podem dizer que vão "continuar na luta", podem até culpar a Madre Teresa pela incompetência que assola o grupo. O fato, no entanto, é que morreu. A tendência agora é o movimento dispersar. Diversos amigos entraram em contato comigo perguntando como fazer a desfiliação, e eu obviamente expliquei direitinho. Os membros mais agarrados ao projeto vão ficar, mas terão que apagar a luz quando a sala estiver vazia. Isso tudo foi acontecer logo agora, ano eleitoral, justo quando o movimento deveria estar mais sólido do que nunca.

De minha parte tenho pena somente daqueles que fizeram um bom trabalho, como foi o caso de Rodrigo Saraiva e de alguns amigos e conhecidos. É uma pena que tenham se dedicado a algo que estava fadado a fracassar. Dos demais não tenho pena alguma. Gente como Fábio Ostermann e Alexandre Paiva, gente como Mano Ferreira ou Karla Falcão, para mim, são pessoas que precisam pagar caro pela arrogância. O preço para eles será alto, se é que já não foi cobrado.




* Meus primeiros contatos com o Livres não surtiram nenhum efeito. Fiquei por um bom tempo tentando conversar com a direção nacional, mas nada vinha de retorno. Descobri, algum tempo depois, que os left-libs que comandam o movimento já me conheciam, conheciam minhas posições à direita e queriam me boicotar intencionalmente.

** Na época da campanha ocorreu exatamente o mesmo que descrevi acima. Eu estava apoiando uma candidata deles, mas eles estavam preocupados com o fato de eu ter criticado publicamente o Carlos Góes, do Mercado Popular. Goés, que é amigo do grupo, já havia feito textos apoiando Fernando Haddad e defendendo Thomas Piketty. A verdade é que o grupinho tinha verdadeira ojeriza ao meu nome, e isso estava em tal nível que cheguei a ser banido em grupos e páginas nos quais nunca comentei. Foi tipo um banimento preventivo para que eu nunca comentasse nestes espaços que pertenciam a eles.
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